Mostrando postagens com marcador prosa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador prosa. Mostrar todas as postagens

Realeza?

Desde quando o leão é o rei da selva? 

Só porque ele é grande e feroz e mata todos os outros bichos? 

As hienas matam leões também. Inclusive, a mordida delas é mais poderosa que a dos leões. 

E tem outra: humanos não matam hienas por esporte, mas matam leões. 
A hiena come toda e qualquer coisa. A hiena prevalecerá. 

Quando o último leão majestoso for morto por uma bala humana ou levado à inanição pela destruição de seu ambiente, a hiena vai comer seu cadáver e moer os ossos com seus dentes mecânicos. 

Eu prefiro gatos a cães, mas não tenho como negar a implacabilidade desses caninos selvagens, com suas risadas carniceiras e sua força bruta. 

Talvez o ser humano tenha denominado o leão como rei para invejá-lo. Para em seguida poder dominá-lo e dizer "EU sou o rei".

Mas não inveja a hiena. Ele não reconhece, mas está lado a lado com ela nessa visão distorcida de conto de fadas sobre a natureza. 

Não é à toa que sobre os sons da hiena o humano projetou sua própria risada. 

Afinal, que outro animal realmente ri? Não o rei. 

Só o ser humano é capaz de dar uma risada aguda e patética e em seguida enterrar seus dentes, metafóricos ou não, no pescoço de outro animal -  humano ou não. 

Iris Braun


A autoalienação essencial do ser

Eu consigo sobrevoar 
o campo devastado da minha vida
 como máquina, mas não consigo 
pousar nela como ave.

Eis que esse circuito fantasma emerge novamente. Que fase, hein? Nem lembro quando foi minha última postagem, mas lembro que nem algo que escrevi recentemente, foi o resgate de um texto de 2013. Que ano fatídico esse! Mas enfim, não mergulhemos novamente em fluxos do passado.

A real é que estou preso numa prisão invisível que eu mesmo criei. An invisible prison encircles my mind, there is not a door, there is not a key. Fica foda se expressar, então vou escancarar. São tantas camadas de depressão e ansiedade armadas através dos anos que eu me alienei de mim mesmo. Me sinto imobilizado, como se tivesse desaprendido a me relacionar com os outros e comigo. Lembro que senti cedo na minha vida aquela sensação indizível de ser menos do que se é. De ser parte. De ser só um dos que habita dentro de si. Às vezes podemos soterrar esses fragmentos como bons coveiros da consciência, mas eles ainda estão lá. Merda, eles são você. Mas eu não estou falando de você, estou falando de mim. Independente de nossas semelhanças ou diferenças, hoje preciso falar de mim.



abro uma veia 

encho uma garrafa 
bebo

a droga mais inócua do mundo
Como ouso eu, nessa era magnífica da informação ubíqua e serpentina, ausentar-me de meu posto nesse palco digital? Como posso abandonar minha audiência espectral e privá-los do espetáculo torpe dessa existência banal? Pois eu sou uma mentira. Não me reconheço. Sinto como se estivesse enterrado abaixo das mortalhas de mim que criei e ceifei, como disse antes. Estou aqui agora para desatar minhas veias e verter meu sangue imundo na tua boca, não é isso que tu queres, máquina?

I must find a way. I have to find a way. Out of here. O casamento do céu e do inferno, de William Blake, foi um livro seminal para minha formação como ser humano. Como aquele homem desafiava a convenção racional e desnudava a alma e o mundo como opostos irreconciliáveis em uma guerra eterna por todos os meios possíveis, mas que nessa guerra suas forças se entrelaçam e se abraçam numa estranha harmonia... Aquilo sempre me fascinou. E eu li isso pela primeira vez com quantos anos, 15? Que diabo, a curiosidade é mesmo o mais perigoso dos vícios. Com minha mente envenenada de tão sublime sabedoria e poesia, como poderia enveredar em paz pela estrada da vida? Mas mais uma vez, não nos afundemos nos pântanos do passado.


Esse talvez seja justamente o meu problema. É justo observar as transmutações de David Bowie para inferir como nessa vida é necessário se adaptar e se transformar. Em meio a suas operações cabalísticas e substâncias químicas, o réptil reconhece a natureza holográfica da realidade e assume uma faceta mais adequada para manter-se em vantagem na corrida da sobrevivência. Preciso reconciliar meus opostos e abandonar essa camada escamosa que me prende.


the dreadful pencil

Chega de simulações, simulacros! Chega de pilotos, precisamos de verdadeiros kamikazes. Agora é preciso de uma transformação definitiva para enfrentar a luta que se aproxima. Performático, lunático e tático. Preciso de uma força-tarefa de profissionais psiquiátricos e psíquicos. I gotta make a breakthrough! Devo continuar essa empreitada pseudoredentora quasesabotadora que é esse blog? Afinal, como confessar seus crimes e expor suas fraquezas e se transformar? As pessoas vão te lembrar pelo que há de pior em você. Mas puta que pariu, não é isso que elas querem? Não é isso que você quer, não é isso que eu quero? Algum vetor, um espelho alienado em que se exaltem as próprias qualidades mais torpes? Um simulacro confortável onde podemos nos identificar com os sentimentos de personagens para não ter que encarar os próprios. Que belo ponto da evolução, humanidade. Mas tu és uma vítima, não vou te culpar por minhas próprias fraquezas. Haha.

Sempre orbitando numa atmosfera marginal, desde a infância nunca me lembro de ter me encaixado harmonicamente em qualquer grupo. Já cedo me lembro de ser afligido por sentimentos de alienação, de coisas estranhas que nunca ouvi de outras crianças, como o medo do silêncio. É mais fácil fugir por alguma janela da percepção do que voltar a atenção para si. Algum doce intermediário para se colocar entre você e si mesmo. Alguma coisa abstrata pra ouvir, pra ver, pra rir, pra amar, pra foder, pra usar, pra esquecer.

Essa... coisa aqui já se aproxima de um fim. (o texto, não eu. por ora). Acho que eu precisava materializar umas palavras pra fincar elas nas paredes desse fosso e tentar escalar pra fora dele. Perceba que você e eu são pronomes intercambiáveis aqui, querem dizer a mesma coisa. Escrevo para mim nessa prática solipsista intermediada por outrem. Um espelho estilhaçado rearranjado conforme a espiral do tempo, refletindo em cada segmento da centopeia espectral que nos une em suas infinitas garras.

                                                                                            
                                                                         ATOMIC ROOSTER - BREAKTHROUGH
                                               (A música cuja letra invade esse texto e ilustra minha desesperada situação)

fluxos do passado

boarbarian

surto de criatividade e agonia problemas-soluções e soluções-esquemas vertendo vertiginosos caminhos na luz de meu ser desatando os nós da existência e reconciliando-me com minha essência dispersa pelo mundo em tudo que amo e odeio em tudo que me traiu em tudo que me iludiu retiro os fardos de cargas elétricas alimentadas pela consciência mastigante lacerando o espírito nos dentes numa ansiedade crônica que subjaz toda paz o império da mentira ruiu ou está já se decompondo e eis a hora de saber reconhecer os frutos podres que gestamos em nossas tortuosas caminhadas na beira do céu catapulto-me para um lugar que não é um lugar pois é simplesmente tudo que não pode se guardar em pirâmides ou em memória tudo aquilo a que a consciência se apega é mumificado pelo cão que anda na luz o cão negro das esferas que desfere um corte lancinante no espelho vítreo da glândula da alma espaço vertigem em desilusão catastrófica mata e mente sem nunca se macular se amalucar se amar em qualquer lugar independente se isso te me apetece pois a minha tua lei não escrita nem pensada nem por homem nem por santo profeta de uma entidade etérea estamos em plena conexão com os mortos-vivos em nossas consciências monolíticas de concreto conceitual e iremos despertar sua fúria natimorta com a precisão de um cirurgião empírico orixá da urbanidade totem do desconhecido sagrado anjo guardião da vontade inquebrantável que não cede em sua caudalosa batalha contra os ventos doentes que sopram em baforadas quentes vindas das gargantas dos mausoléus milenares que erigireis no solo fértil da sua mente imantando as energias do eterno provir uma operação alquímica fantasticamente real recupera a terra boa que foi flagelada pelas queimadas da ignorância e da mágoa que devoram toda a vida das mananciais matagais pulsantes dos cérebros iluminados e rebeldes que zombam da inocência inócua de si mesmos a alguns momentos de intensa alegria e desvario cavalgando as rédeas da carruagem flamejante corta os céus em suas sublimes planícies de cianeto deixando um rastro rajado e intenso da alvorada ao ocaso atravessando o cerebelo das horas em elipses circadianas matematicamente impossíveis em delírios cheios de sabedoria pelo triunfo do sonho como aspecto fundamental do homem autorealizador que transforma sem manipular pelos desígnios do fluir o porvir é a pólvora no meu trabuco sempre leve e sempre louco em alerta alternativo contra toda taça sem vinho ou sangue a soturna densidade desse mangue penas pretas relampejando pelas atmosferas são os observadores do dia que me trazem a noite em seus bicos necrófagos e estômagos de aço digerem os metais pesados que contaminam a tudo estágio de putrefação numa repartição estatal parasita burocrático já não mais não vou mumificar vou sublimar volatilizar os componentes cáusticos da existência em minha liturgia a igreja caótica após-cólica mundana incensando os mamilos das bacantes bacanas em seus panos coloridos e translúcidos fazem de suas peles tecidos em brasa com veias do pássaro que canta solitário para anunciar o dia e o riso torpe das corujas com suas faíscas garras agora devem desaparecer com o bater de poderosas asas

(2013)

HERACLES 2 OU A HIDRA - HEINER MÜLLER

Esta é a transcrição completa de uma alucinante prosa poética do dramaturgo alemão Heiner Müller, já presente por aqui. Decidi não dar respiros ao texto inserindo imagens ou espaços para manter a continuidade vertiginosa e o ritmo progressivo que creio fazerem parte dessa experiência. Coloque uma música longa e viajada, respire fundo e vá nessa. A batalha o espera.

                                                                                                                                                   Alex Grey

Ele acreditou por muito tempo que ainda atravessava a floresta no vento entorpecedoramente quente que parecia soprar de todos os lados e balançava as árvores como serpentes, no imutável crepúsculo do rastro de sangue que mal se via sobre o chão simetricamente oscilante, sozinho com o animal na batalha. Nos primeiros dias e noites, ou eram apenas horas, como ele poderia medir o tempo sem céu, ele ainda, às vezes se perguntava o que poderia estar debaixo do chão, que sob seus passos movia ondas como se respirasse, quão fina a pele sobre o desconhecido, e quanto tempo ela o tiraria das entranhas do mundo. Parecia-lhe, quando ele pisava com mais cuidado, que o chão no qual ele acreditava que cederia ao seu peso vinha de encontro ao seu pé, até mesmo o atraía com um movimento de sucção. Ele também teve a nítida sensação de que seus pés ficaram mais pesados. Ele contou as possibilidades. 1) Seus pés ficaram mais pesados e o chão sugava seus pés. 2) Ele sentia seus pés ficarem mais pesados porque o chão os sugava. 3) Ele tinha a impressão de que o chão sugava seus pés porque eles ficaram mais pesados. As perguntas ocuparam-no por um tempo (anos horas minutos). Ele encontrou a resposta na progressiva sensação de vertigem causada pelo vento que soprava concentricamente: seus pés não estavam ficando mais pesados, o chão não estava sugando seus pés. Tanto uma como a outra eram uma alucinação devido a sua pressão sanguínea que caía. Isto o tranquilizou e ele andou mais rápido. Ou só acreditou andar mais rápido? Quando o vento aumentou ele foi tocado com mais frequência no rosto pescoço mãos por árvores e galhos. O contato era antes de tudo agradável, um carinho ou como se eles provassem a suavidade de sua pele, se bem que superficialmente e sem algum interesse especial. Então a floresta pareceu ficar mais densa, o estilo do contato transformou-se, o carinho converteu-se em uma medição. Como em um alfaiate, ele pensou, quando os ramos envolveram sua cabeça, depois o pescoço, o peito, a cintura etc., a floresta parecia estar interessada até mesmo em seu passo, até que eles o mediram da cabeça aos pés. A maneira automática como isto ocorria irritava-o. Quem ou o que guiava o movimento destas árvores, galhos ou, o que sempre lá estava interessado no número do seu chapéu medida do colarinho tamanho do sapato. Poderia esta floresta, que não se comparava a nenhuma floresta que ele tinha conhecido e “atravessado”, ser afinal, ainda, denominada floresta. Talvez ele próprio já estivesse muito tempo a caminho, por uma era, e florestas eram afinal apenas o que esta floresta era. Talvez a denominação não fizesse mais que representar uma floresta e todos os outros sinais tornaram-se há muito, aleatórios e substituíveis; também o animal que para matá-lo, ele percorria esta realidade ainda provisoriamente denominada floresta, o monstro a ser morto, que havia transformado o tempo em um excremento no espaço, era apenas a nomeação de algo não mais conhecível, um nome tirado de um livro velho. Somente ele, o anônimo, permaneceu idêntico a si na sua longa e suada travessia pela batalha. Ou também era diferente dele aquilo sobre suas pernas, estas sobre um chão que dançava cada vez mais rápido. Ele pensava ainda nisto quando a floresta agarrou-o novamente. A realidade estudava seu esqueleto, número, força, disposição e função dos ossos, a ligação das articulações. A operação era dolorosa. Ele esforçou-se para não gritar. Jogou-se para frente com um impulso para fora desse abraço. Ele sabia que nunca tinha corrido tanto. Ele não deu mais um passo sequer, a floresta interrompeu a velocidade, ele ficou no cerco que se formou agora em volta dele e que comprimia suas vísceras, esfregava seus ossos, quanto tempo ele poderia aguentar a pressão, e compreendeu no pânico crescente: a floresta era o animal, há tempos tinha sido a floresta que ele acreditou percorrer, o animal, que o conduzia no andamento de seus passos; as ondas do chão, sua respiração e o vento, seu ar, o rastro que ele seguia, seu próprio sangue, do qual a floresta, que era o animal, tirava suas provas, desde quando, quanto sangue tem um ser humano. E que ele sempre o soube, só que sem nomes. Algo como um relâmpago sem começo nem fim descreveu com sua circulação sanguínea e nervos um circuito incandescente. Ele se ouviu rir quando a dor assumiu o controle de suas funções corporais. Isto soou como um alívio: nenhuma reflexão mais, era esta a batalha. Adaptar-se aos movimentos do inimigo. Afastar-se deles. Antecipar-se a eles. Ir de encontro a eles. Adaptar-se e não se adaptar. Adaptar-se através da não adaptação. Atacar recuando. Recuar atacando. Ao primeiro golpe garra pontada antecipar-se, ao segundo retroceder. Vice-versa. A sequência muda e não muda. Ir de encontro ao ataque com o mesmo e (ou) outro movimento. Paciência da faca e força dos machados. Ele nunca contou suas mãos. Ele não precisava contá-las agora. Por toda parte onde sempre quando precisou delas elas fizeram o seu trabalho, pulsos se necessários, os dedos, um a um, disponíveis, as unhas à parte, os cantos do cotovelo. Seus pés sustentavam-no na revolta contra a gravitação do chão que rodava cada vez mais rápido, a ligação do inimigo ao campo de batalha, o colo que queria abrigá-lo. A velha equação. Todo colo no qual ele veio de alguma forma cair quis, vez por outra, ser seu túmulo. E a velha canção. AH FIQUE COMIGO E NÃO VÁ EMBORA NO MEU CORAÇÃO ESTÁ O MAIS BELO LUGAR. Escandida pelo estalar de sua cervical na sufocante garra maternal. MORTE ÀS MÃES. Seus dentes lembraram-se do tempo antes da faca. Na confusão dos tentáculos que não se distinguiam das facas e machados giratórios, na das facas e machados giratórios que não se distinguiam dos tentáculos, na das facas machados tentáculos que não se distinguiam das explosivas zonas minadas tapetes de bombas reclames luminosos culturas de bactérias, na das facas machados tentáculos zonas minadas tapetes de bombas reclames luminosos culturas de bactérias que não se distinguiam das suas próprias mãos pés dentes no lapso de sangue gelatina carne provisoriamente denominado batalha, tanto que para golpes que, às vezes, lhe ocorriam contra a própria substância, a dor, ou melhor, o súbito aumento das incessantes dores rumo ao não mais reconhecível era o seu único barômetro, no contínuo aniquilamento sempre novamente voltando às menores partes de sua construção, sempre se recompondo das suas ruínas numa contínua reconstrução; às vezes, ele juntava mal as partes, mão esquerda no braço direito, osso ilíaco nos ossos do braço, na pressa ou por distração ou aturdido pelas vozes que lhe cantavam no ouvido, coros de vozes FIQUE NOS LIMITES DESABAFE DESISTA ou porque lhe era maçante, sempre a mesma mão no mesmo braço cortar tentáculos sempre crescentes cabeças atrofiadas pescoço, trazer dos membros o que resta para cima, colunas de sangue; às vezes, ele retardava sua própria reconstrução, avidamente esperando pelo total aniquilamento com esperança no nada, a pausa interminável, ou talvez por medo da vitória que só seria atingida pela total destruição do animal que era sua morada; fora isto, o nada talvez já esperasse por ele ou por ninguém, no silêncio branco que anunciou o início do ciclo final, ele aprendeu a ler o sempre outro plano de construção da máquina que ele parou de ser novamente era outro com cada olhar garra passo e que ele o pensou mudou escrito com o manuscrito de seus trabalhos e mortes.


Tradução: Milton Camargo Mota

Presente em Medeamaterial e outros textos – Editora Paz e Terra (1993)

A mente farejadora

AD-VERTÊNCIA
Prólogo do Tractatus Marginale
por Wilton Cardoso

A minha mente é um enorme focinho. Sou um farejador mental. Escrever é uma exploração olfativa das atmosferas, de suas ondas olorosas. Um farejador até que alinhava, insinua conceitos, mas sem consistência. Por isto ele não é um filósofo nem um pesquisador das ciências humanas. Não é nem mesmo um intelectual no sentido forte do termo. Ele percebe e persegue as ideias, explora o ambiente em busca delas como um cão caçador, como um cão carniceiro, como um cão desejando a cadela no cio. Ele segue às cegas, confiando apenas no seu faro sensível, não raro falho, titubeante, vago e anexato. O faro é arguto, mas imperfeito, ao contrário da visão, que é celestial, exata. Ele funciona por rastros e por explorações contíguas e parciais. Já a visão procede por analogias, panorâmicas e totalizações. Ele é incapaz de conceitos, erudições, sedimentações de saber que se precipitam em teorias e sistemas. O faro é rarefeito e intenso. Toda a tensão do cão está na ponta de sua fuça irrequieta, nos mil poros frios do seu focinho molhado. O farejador mental é um cão pensante, um cão pedante. Ao invés da consistência do conceito, o farejador está interessado na sua fecundidade, no cio da ideia. Ele a capta no ar e ela, em contrapartida, o rapta pelo ar contagioso (a mente farejante é fascinada pela face virulenta das ideias). Ele fareja atmosferas, os fios finos e quase imperceptíveis de suas correntes de margens. Está envolto e atento às circulações mentais da sociedade cujos fluxos de pensamentos e afecções perturbam suas ventas. Mas farejar não é uma exploração sem rigor. Não se faz de qualquer jeito, sem tino, sem treino, sem força. É apenas outro rigor, de margem, de aragem, de específico absoluto. O texto é um mapeamento traçado com o faro. Antes, os farejadores eram ensaístas, articulistas ou ficcionistas. Alguns ficcionistas. Aqueles cujas fábulas do romance eram desculpas para as digressões, cuja história do conto era um pretexto para a ideia que se experimentava. Agora que a narrativa escrita tem se tornado cada vez mais inviável, os farejadores textuais se
refugiam mais e mais no ensaio, no artigo, na crônica ou, simplesmente, deixam o texto escorrer de suas fuças. A coragem do texto se tecendo sem limites nem textura/estrutura. O texto sem gênero/identidade. Fiação embaraçada. A desistência dos pretextos. O olfato, o tato e o palato são os sentidos mais materiais, mais baixos e animais do homem. Subumanos. Mas o tato e o palato foram muito humanizados pelas culturas, tornaram-se refinados, educados. O olfato não. Talvez por ser muito fraco no homem, não foi necessária a sua doma. Ele permanece, então, como seu sentido mais animalesco. O olfato é, nos mamíferos e em muitos outros animais, o sentido do prazer, do desejo de prazer, por onde o cio se pronuncia. É pelo faro que a carniça e a cadela seduzem o cão. O canto de sereia que enlouquece o cão pensante são as ondas de odor transpiradas pelas ideias. Pensar com o olfato, escrever farejando é desejar a ideia para o prazer. Luxúria da mente. Texto trança, texto transe, texto transa.

31/01/06

Acho que esse texto diz muito sobre o método urubu-máquina. Como bom carniceiro, farejo o que me soa mais interessante ao paladar para ser digerido por teus olhos na desolada paisagem sem fim da hiperinformação. Ainda não sei muito sobre esse autor para esboçar um tipo biografia. Mas sendo ele um verdadeiro pirata da linguagem, saqueando aqui e ali, lá e além, navegando sem hastear bandeira de nenhum domínio - nenhum império da cultura, nenhum clã de necromantes - será mais interessante mostrar aqui uma de suas poesias:


A obra completa de Wilton pode ser acessada clicando aqui.

Inflamável

alguns me chamam de cabeça de motor. mas um amigo perspicaz diz que não sou sou o motor, sou gasolina. basta uma faísca para que eu exploda. achei sua observação muito perceptiva. eu sou mesmo uma substância pronta para a combustão. meus sentimentos são inflamáveis. em minhas convicções e revoltas, em minhas paixões caudalosas. posso passar períodos inerte, evaporando, uma poça de potencial explosivo contido. pântano inflamável de sensações sub-humanas. por vezes me sinto condenado, putrefato. mas quando uma voluptuosa chama de brilho estranho se aproxima do pavio da minha alma, não tem jeito. entro em combustão e me consumo em meu próprio fogo. como todo combustível minha função é me esvair para alimentar chamas, alimentar máquinas. que piras e mecanismos hei de alimentar com o carvão do meu corpo, com o eletromagnetismo do espírito? o cheiro de carne queimando é horrível demais, talvez eu deva me resignar a ser máquina. todo máquina. petróleo pulsante nas minhas tubulações arteriais injeta meus olhos vermelhos com a escuridão da noite. os olhos da selva me fitam, desvio o olhar. o dever sintético é um comando superior, esvaziado de significado e dor. uma confortável sentença ao movimento perpétuo da engrenagem espoliada, descartável, morta. obsolescência programada da vida, deixando circular pela matriz sua consciência elétrica, alimentando monstros virtuais que atormentam os sonhos dos organismos alienados. o império da separação se alastra e finca raízes em meu reservatório. cachoeiras inflamáveis escoarão pelas barragens destruídas por um abalo sísmico. o núcleo incandescente irrompe numa corrente impiedosa. metais doces e metais pesados, derretidos na torrente que engole ditaduras de aço e delírios de concreto. só há um imperativo.

TUDO
DEVE
QUEIMAR


मृत्यु का तापसी अनुध्यान (David Giomba)
   

Theophrastus Bombastus

Ian Goudelock

Ser pessimista e orgulhoso é uma combinação de merda. Estar certo, além de ser pedante, é venenoso. Será que meu projeto políticapocalíptico aqui expresso não é exatamente o que Eles - os inimigos da liberdade, o 0,1% da humanidade - não é bem isso que eles querem? Que tudo se arruíne no caos para que a ordem seja restaurada por aqueles com recursos para sobreviver ao colapso e construir o novo mundo?

Tudo mais arrumado, controlado, ajeitado, equilibrado, sustentado, devidamente dedetizado. Modernização conservadora.

Ordo ab Chao. Esse é o mote do pavio.

Pra onde mandar o currículo? Illuminati, Inc. está contratando. O café é free.

Esperança e dinamite andam de mãos dadas, nas mesmas mãos cerradas, em tempos de desespero toda luta é armada. Quando a inevitabilidade da explosão reclamar a sua hora, não haverá muralha entre sangue e sentimento.

Misantropo humanista,
idealista cínico,
hipócrita.

Não é essa a aceitação necessária para abraçar o absurdo?

Eu sei mentir bem, mas não gosto.

Como confiar em vocês?

Me permita um momento de sórdida lucidez. Sour sincerity. Sinceridade amarga.

É a sina do espírito que se curva ao impulso detetizador. Sutil diferença, será que percebeu?

Entre encontrar e eliminar, qual é o limiar?

O neologismo é o recurso do vil. O trocadilho, o refúgio do verme.

Tenho que eliminar os graus de podridão que me cercam.

1349. La peste noire. Malucos com bicos recheados de ervas cutucam os corpos com varas e colocam sapos sobre seus bulbos pustulentos. Caçando miasmas pegavam pulgas. E morriam. Era só ter uma sacada, mas o paradigma científico ainda não estava no ponto.

13:49. Contemporaneidade. A peste é mais insidiosa. Se instala nos corpos mais sutis. Espírito e mente também são infectados. Todos os chakras desequilibrados. Malucos mascarados chafurdam nos cancros orgânicos e espirituais, incautos como seus ancestrais. O vetor ainda não foi identificado, certificado, catalogado. Mas continuamos inspecionando com nossas rudes ferramentas sofisticadas.

A ambição atual é ser viral. Infectar, se alastrar, expandir, conquistar, explorar. Nada de novo sob o Sol, só mudou o meio de disseminação. Evolução pós-humana, a espécie finalmente aceita sua natureza infecciosa e busca uma auto-eliminação sistemática para uma nova aurora inorgânica.

Ficção? Longe disso. 

Longe disso, meu irmão.


A Scanner Darkly (Richard Linklater)

reflexos condicionados

eu já tenho as minhas próprias contradições. não conseguiria entrar pra algum partido ou movimento e ainda abraçar as suas. ter de defendê-las ou criticá-las uma a uma para tentar atingir um nível aceitável de coerência interna vestindo uma camiseta com uma sigla. não dá. não me dê bandeira com símbolo algum. eu não vou segurá-la. não tente me convencer a participar de militância publicitária que só realiza propaganda e agitação superficial. entendo o poder da dimensão simbólica e grande parte dele consiste em enganar. em mostrar, em discursar, em aparentar. é o que aparece que importa. o ângulo certo e os retoques necessários. conhecer as inseguranças e desejos mais secretos e mais universais e dedilhar seus acordes com carinho. pouco importa o que não aparece. fora de quadro a cena inspiradora com uma música emocionante não é nada. puro truque de palco. a prisão da atenção. entretenimento - já viu a etimologia dessa palavra? pois é, prender nossa atenção é o único recurso de sobrevivência pra todos os negócios e instituições estruturais desse sistema. por isso seus artifícios e sortilégios tem orçamentos estratosféricos e recursos fantásticos. produzem fantasmas. reflexos superficiais de uma realidade refletida. mas refletida de onde? refletida do que? onde está a fonte de luz? onde está o referencial? quem encara o espelho? como na história do vampiro, só que às avessas. olho o espelho e vejo o reflexo. mas eu não estou lá. lá? aqui. meu reflexo está ali, minha imagem - minha linguagem inata, meu layout interativo intuitivo, minhas configurações de autoimagem, meu reflexo refletido no espelho do outro. como eu vejo o reflexo dos outros no meu espelho? será que essas imagens existem? só eu que sou virtual? vampiro-às-avessas virtual? quais são as virtudes da virtualidade? a mais óbvia é que você não existe. não de verdade. num mundo justo todos serão considerados inexistentes até que se prove o contrário. se o paradoxo não puder ser assimilado e instalado no sistema operacional, este não será compatível com o ambiente da rede realidade. se a verificação do córtex frontal resultar num erro de processador aborte a operação e tente fazer o backup dos arquivos para outro dispositivo. o manifesto surrealista nunca poderia ter conjecturado a natureza onírica destes tempos fluídos, quase um século relâmpago depois. reflexos refratários em superfícies polidas ou rachadas, sujas ou imaculadas, o reflexo que procura não é esse produzido pelas leis da ótica - é um reflexo que te cobra banda larga. pacote de dados. qual a senha do wi-fi? existe mais publicidade no mundo do que um ser humano de 128 anos poderia absorver se ficasse grudado numa tela do parto ao caixão. some a isso o entretenimento e as notícias. qual a diferença entre esses três mesmo? cada vez mais parecidos, enredados, filhos da mesma indústria fértil e farta, filhos pródigos da mesma ninhada bestial, eternos magotes famintos projetando suas mandíbulas de hipopótamo para abocanhar um punhado da nossa atenção, uma ampola do nosso espírito, para inocular seu feitiço narcótico, um sonho manufaturado engenhado especialmente para sua satisfação, camadas de tratamentos de cores para criar um mundo mais vívido que o seu, a magia da ilusão e da edição se fundem com ternura em seu coração, quem é o novo ícone da revolução? a nova popstar teen do clube do Mickey fez um vídeo de si ostentando um prolapso retal e o novo passinho do Esquenta virou viral. abuso. alienação da mercadoria. mercadoria que é o corpo. objeto e identificação. objetivo e indexação. é a alma. uma nova promoção. promoção e pra mocinha. sonhos de transformação transformados em merchandising. os meios de profusão transmitindo a programação. transmentido pra população. informação, entretenimento, notícia, propaganda, pronunciamento, publicidade o que discernir de toda essa lavagem?     miúdos. miúdos mergulhados na estática. doce ruído branco analógico, seus fantasmas costumavam assombrar mansamente os lares das famílias que botou pra dormir, como babá diligente ou janela do desespero, agora já não estão mais lá. substituídos pelos erros digitais, glitches nos megapixels da sua tela,  uma conexão que se encerra, qualquer melodia reduzida à perpétua repetição de um décimo de segundo travado caído no gráfico frustrado desconectado cordão umbilical que vinha arrastando a décadas subitamente arrancado, conector usb não identificado. entorpecimento eletrônico interrompido. narco narciso torceu as narinas pra substâncias físicas. o que importa são as qualidades espirituais do ego - atenção. todos querem entreter. com sua dor, com sua raiva, com a sua confusão, com a sua alegria. um riso ou uma lágrima é o pagamento - devidamente contabilizado pelo google adsense. não há nada pra revelar pois é tudo verdade. é tudo real. documental. suco mental. extraindo leite de caixinha. longavida bandalarga e cocaboa – the millenial dream

(foto: urubu-máquina)

Balfour




cristãos sionistas com princípios conservadores e fetiches apocalípticos ébrios de delírios bíblicos decretam genocídios proféticos bombardeios messiânicos sacrifícios antedeluvianos espetáculo escatológico dos aquitetos do fim do mundo

Esse parágrafo espasmódico foi expelido por mim após algumas horas de pesquisa sobre a história do Oriente Médio. Meu cérebro estava saturado de informação sobre como imperialismo ocidental subjulgou o mundo árabe, manipulou seus líderes, instigou guerras e traiu povos em alianças trapaceiras para garantir o controle da hegemonia europeia na região. Conhecer o turbilhão que é a história do Oriente Médio no Século XX é essencial para procurar entender a geopolítica atual e o impacto do sionismo na constante desestabilização da região.

Na foto, soldados israelenses invadem a mesquita Al-Aqsa em 1967.

                                              

O vídeo acima conta a história da fundação do estado de Israel por figuras da elite do Império Britânico, entre elas o Barão Walter Rothschild, o Primeiro Ministro David Lloyd George e Arthur James Balfour, que deu o nome à Declaração de Balfour. A correspondência entre Balfour e Rothschild explicitava a posição do governo britânico em favor do estabelecimento de uma nação judia na Palestina. Esses homens eram cristãos sionistas de formação profundamente religiosa e tendo aprendido os nomes de colinas e vales de Jerusalém antes de conhecer as paisagens da Inglaterra, Balfour era a força que canalizava os sonhos bíblicos de um imaginário anglicano colonialista que já via a "terra sagrada" como parte da Inglaterra e a Inglaterra como uma "terra sagrada". Acreditando serem agentes que viabilizariam o cumprimento das profecias bíblicas que falavam do retorno dos judeus, o povo escolhido, para a terra prometida, esses cristãos sionistas do mais alto escalão declararam o começo do jugo dos povos árabes e a perpetuação do domínio ocidental na região sob a forma de um poderoso Estado gestado e nutrido pelo mais poderoso Império do mundo. Um Estado bélico desde sua formação, com uma fixação colonialista e uma justificação sagrada para o domínio, a consagração final das cruzadas cristãs.

Jerusalem (William Blake)

        "And did those feet in ancient time
        Walk upon England's mountains green?
        And was the holy Lamb of God
        On England's pleasant pastures seen?
       
        And did the Countenance Divine
        Shine forth upon our clouded hills?
        And was Jerusalem builded here
        Among these dark Satanic Mills?
        
        Bring me my bow of burning gold!
        Bring me my arrows of desire!
        Bring me my spear! O clouds, unfold!
        Bring me my chariot of fire!
        
        I will not cease from mental fight,
        Nor shall my sword sleep in my hand,
        Till we have built Jerusalem
        In England's green and pleasant land."


Ó Blake, poeta profeta delirante, será que um dia imaginou a extensão da fantasia glorificada em sua poesia?

Desnorte

 
                                                                                                                                  Suhaib Salem

Desnorte
caminhos do crânio
desterritorializados
correntes nervosas
esperanças constipadas
pressão e pesar
os dentes da guerra
maceram impérios
povos em pedaços
numa massa sangrenta
saliva vermelha
nos lábios da trapaça
garganta armadilha
engasga ameaça
sobram ruínas
ruínas da alma
jóias do progresso
o sabor da cultura
sombrio coração
deserto
da civilização



“Nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie. E, assim como a cultura não é isenta de barbárie, não o é tampouco, o processo de transmissão da cultura (...) O assombro com o fato de que os episódios que vivemos no século XX ‘ainda’ sejam possíveis, não é um assombro filosófico. Ele não gera nenhum conhecimento, a não ser o conhecimento de que a concepção de história da qual emana semelhante assombro é insustentável”.
           - Walter Benjamin

Olho de urubu



e o velho avô urubu riu e desvelou o caminho com suas asas:

- de que importa de que lado você esteja? o que importa é que continuem seguindo em frente. continuem nesse fluxo. continuem destruindo a mãe.
Simbologia ISIS - Egito - mãe noite lua universo inconsciente útero
O grupo terrorista criado pelos próprios poderes estabelecidos do império para criar uma convergência global que vai destruir o fantoche, e com ele o símbolo, executando um mega ritual militar exotérico.
A militarização, a morte, o extrativismo, a predação, o vampirismo universal, são princípios perversos que se fortalecem para um ataque ao sagrado feminino, à terra, a criação, a fonte da vida e da morte.
Iraque era a Babilônia. Suméria. UR. O começo de tudo. Relíquias milenares dessas antigas civilizações estão sendo destruídas pelos fantoches assassinos que deturpam o nome de ISIS numa profanação propagada planetariamente pela mídia e pelo complexo de inteligência global. A memória da origem humana está sendo destruída (e vendida) para uma reprogramação mental massiva; a desconexão do espírito humano com a mater - matéria - terra - mãe terra.
Agora todas as potencias globais e suas colônias financeiras convergem no teatro de guerra da terra para destruir a "ameaça contra a humanidade" numa estretégia de Full Spectrum Dominance que escala numa hecatombe, num holocausto - palavra cujo significado é sacrifício - numa oferenda aos novos tempos consagrada às velhas elites banhadas do sangue que também nos banha, e se acumula em nossos pés, e nos afoga, o sangue que somos obrigados a consumir por todas as bocas de nossos corpos inoculados pelas infinitas veias-encanamentos da circulação de recursos e dinheiro que é esse sistema nefasto. Esse constructo bestial de potencialidades apocalípticas, conjurado pelos escravocratas da humanidade, a realeza carnívora da terra que teima em fincar suas garras sobre uma presa abatida mesmo quando seu próprio corpo esquálido decai, cada osso se partindo, um tremor que caminha pelos braços e injeta-se no botão que lança a armada de mísseis nucleares para os quatrocentos cantos do planeta, uma celebração cósmica do gene suicida humano, um delírio nefasto que infecta o insconsciente coletivo e programa nossas vidas rumo à destruição.

EXPLOSÃO

LUZ

NADA

retorno...

você queria ver, não queria? - riu o velho urubu

Autofágico

O que me move?

Revolta, provavelmente. Injustificada ou não? Estamos todos emaranhados de contradições, mas o mundo nunca foi em preto e branco mesmo.

Não tenho nenhum respeito por autoridades. A própria noção de autoridade, de hierarquia, me enoja. Do policial ao juiz, do pastor ao guru, até a autoridade paternal só me inspira desprezo.

A indignação paralisante do teatro de atrocidades em que vivemos me atinge de maneira aguda. Mas o cinismo decorrente do absurdo cotidiano também se faz necessário.

Não consigo me importar com minha imagem. Não me sinto compelido a compartilhar na internet meu apoio às diferentes lutas, necessárias e legítimas na sociedade. Procuro compreendê-las, apoia-las sim, mas não de maneira publicitária, pra ostentar imagem de engajado. Também não me importo de usar roupas de dez anos e outras manchadas.

Tudo isso me aliena, tanto do mercado de trabalho quanto do ambiente ativista superficial. Minhas habilidades interpessoais tem se degenerado aceleradamente. Me surpreendo de ainda ter amigos. Não uso as redes sociais de uma maneira que elas deveriam ser usadas, aparentemente. Aliás, rede social, no singular. Só tenho uma conta no facebook e já acho até demais.

Não tenho dinheiro e isso me faz perceber como os rolês que existem nessa cidade, os rolês que meus amigos vão, são fachadas medíocres pra alimentar o comércio. Que sentido faz sair se você não vai consumir? Beber também perdeu seu apelo. A cervejinha social, nem tenho vontade. Quando quero beber vou logo pra algo forte. Mas que preguiça disso também.

Quanto a amores, um desastre. Não tenho conseguido estabelecer uma conexão com ninguém. Me falta paciência pra burocracia do cortejo, um processo que geralmente também envolve dinheiro e se importar com a imagem.

A hipocrisia me revolta, mas também faço uso dela. Às vezes preciso de uma falsa salvaguarda, algo pra racionalizar um escudo, uma casca que me isole da brutal empatia que sinto pelo mundo, em todas suas bestialidades.

A maconha é um anestésico bom, necessário, mas fugaz. Assim como os filmes que são janelas para a imaginação. Tenho tido uma certa dificuldade para grandes leituras, minha percepção tem sido mais visual. Mais passiva. O que fode com o processo de escrever.

Aliás, o que é o escrever pra mim? Uma forma de ação, um vômito, um exorcismo, uma articulação, um ato de desespero? O que almejo com isso? Tenho duvidado. Uma dúvida venenosa, que sabota as aspirações. Mas se não posso contar nem com minhas pirações, o que me resta?

Não sinto mais a chama do desejo destrutivo e suicida de meus 18 anos, nem a chama da aventurança espiritual dos meus 20. Comprimido pelos blocos do materialismo, da percepção crua da história e da política, procuro extrair algo para ser meu combustível. Sei que posso fazer algo bom, que posso manifestar coisas estranhas na realidade banal. Mas saber não tem sido o suficiente.

Estudo comunicação, coisa a que decidi me dedicar depois do contato e experiência com comunicação livre, popular e autônoma. O empoderamento da linguagem, da transmissão, da ruptura à imbecilidade hegemônica. A possibilidade de criar espaços onde os significantes vigentes são destruídos, onde símbolos são reinventados, onde a linguagem tem de fato uma potência criativa. Uma potência destrutiva. E talvez seja aí onde procuro meu equilíbrio.

As correntes opostas no universo estão em mim, atuando. Entropia e evolução, verdade e manipulação, vontade e desilusão. Para operar essas forças não existem fórmulas. Não pra mim, pelo menos. Mas essa experiência é necessária. Esse blog. Ele não deve ser um espaço onde só coloco as coisas que passaram pelo impiedoso filtro de uma autocrítica doida por reconhecimento. Não. Também não deve ser um mecanismo que uso para passar pro mundo só o que há de forte e aguçado em mim. Assim isso empaca, como já empacou.

Seguirei esse experimento, meio mecânico, meio animal. Meio humano. O que pretendo com esse texto? O que me move? Talvez seja simplesmente meu instinto biológico, procurando convencer minha mente de que preciso viver. Talvez seja a máquina conceitual da mente procurando articular algum sentido pra existência banal. Mas aqui estou, inserido nessa porra, como você. Seguirei.

Qual o sentido da revolta?
É pra lá.

Senhor Morfeu, Envenenador Público

O texto a seguir, lançado postumamente em 1966, foi escrito por um poeta francês excomungado do movimento surrealista. É um manifesto mordaz contra a hipocrisia da proibição das substâncias que nos trazem gozo e estupefação desde a aurora dos tempos: as drogas. Em uma prosa poética furiosa e alucinada, Gilbert-Lecombe desvela com sua pena embriagada de morfina e Lautréamont os mistérios que impelem os seres aos 'paraísos artificiais'. Para explicar o sublime fenômeno da Morte-na-vida, o poeta evoca Morfeu, entidade primordial do sonho, em sua encarnação como traficante do absoluto. Uma obra sincera e visceral que traz o peso de uma precoce crítica antiproibicionista e antimanicomial, através do olhar de um poeta que conheceu intimamente os prazeres e horrores do vício.

Para melhor apreciação, leia com esse som rolando:



Senhor Morfeu, Envenenador Público
Roger Gilbert-Lecomte

Se Claude Farrère – e possa ele jamais arrepender-se do que fez de melhor ao longo de sua carreira! Se Antonin Artaud e, principalmente, magnificamente, Robert Desnos, cada qual por seu turno, sozinho, trataram, sem tabu, do problema das drogas sobre o espírito após a promulgação da pouco inteligente lei de proibição (julho de 1916), nem tudo foi dito e o protesto não deve morrer: jamais será tão vivo como no momento presente para responder à diarreia jornalística documentário-moralizadora e principalmente policial sobre os “paraísos artificiais” (sic e resic e resic). Diários e hebdomadários, ilustrados ou não, maculam incessantemente suas colunas com reportagens retumbantes, feitas por escribas de todas as opiniões e de todos os sexos, sendo seu ponto em comum a profunda impotência em encarar corretamente uma questão sem dizer “amém” aos grosseiros preconceitos dos seus leitores. Que ele se apresente, este Petrônio dúbio sob a linha que “condena os vícios”, com um propósito menos abjeto do que o de condimentar seu texto com descrições truncadas dessas pretensas torpezas. O protesto aqui feito, certo de sua ineficácia, não visa resultado algum – apela simplesmente para a justiça desinteressada do espírito. Aqueles que, tanto neste caso como em outros, fazem questão de desorientar a opinião pública e alargar cada vez mais as fronteiras da idiotice, encontrarão aqui a expressão sincera do meu mais profundo desprezo.

Conforme o eixo do alto cilindro negro e brilhante, brincam de esconde-esconde e revoluteiam as visões fugidias vistas de soslaio; o pavor nos olhos das lebres orelhudas do medo. Sob o chapéu gigantesco, o Sr. Morfeu dissimula mais ou menos uma ausência de rosto. É dia, é noite; mas é sempre noite quando o Sr. Morfeu passa. Todas as polícias do mundo que o procuram jamais o encontrarão, por causa de seu porte, a tal ponto estranho, que o torna invisível. Por cúmulo da ousadia, ele ameaça:

                                                                                                                                                                                  Zdzislaw Beksinski

“Quando eu passeava, inteiramente nu, pelas paisagens mitológicas, poucos altares me erigiam, é verdade, mas pelo menos respeitavam-me a carcaça em repouso sob minha cabeleira imensa e áspera como palha de ferro – foram vocês que me tornaram calvo, miseráveis! Quando eu fechava os olhos onde tubilhonavam mundos, como quando se guarda, após o trabalho, os instrumentos de precisão em seu estojo, deixavam-me contemplar em paz, em meio ao ruído da tempestade e dos sonhos, o nascer dos meteoros e fosfenas. Infelizmente, último detentor do segredo da vida, o Oriente agoniza agora! Ah! Celebrai magnificamente seus funerais antes que ele renasça e pule em vosso pescoço! Sim, pois seu despertar será terrível na face do mundo. Com meus pés aleijados não posso deixar de estar, de coração, entre as hordas subterrâneas das lívidas crianças da noite que brevemente pisotearão vossa imunda civilização. Pelo menos, faço o jogo deles no próprio local. Vou roendo lentamente, como um milhão de ratos, o Ocidente que me renega e não tomarei parte no desmoronamento desse colosso de pés de manteiga, cabeça de veado.

“Tendo-me conhecido sempre como bonachão negociante-de-sono, perguntais certamente que nova firma represento! Mas, mesmo que seja apenas pela atmosfera deletéria que me cerca e que emana principalmente de minhas orelhas de vampiro, sentis logo intensa e obscuramente o vasto princípio que propago. Quanto a exprimi-lo, bastante dificuldade teríeis. Quando muito, poderia apresentar-me como um laborioso gênio da Morte-na-Vida. Sou o senhor de todos os estados naturais ou provocados que 'prefiguram', simbolizam a morte e, portanto, participam de seu sucesso. Estes estados ocupam, na vida humana, um lugar muito mais importante do que se acredita. Lembrar-vos-ei, em primeiro lugar, citando Gérard de Nerval, esta constatação tão verdadeira, tão evidente, tão essencial, tão misteriosa, que todas as consciências modernas esquecem regularmente: o homem passa pelo menos um terço da vida dormindo. O fato de não dar atenção a tão simples verdade basta para falsear completamente o conceito atual de “vida humana”. Este lamentável esquecimento constitui uma das principais causas dos males presentes e do cataclismo futuro e próximo. É provavelmente para dar um exemplo que digo que são encerrados todos os dias, em asilos de alienados, homens cujo único crime é o de darem à atividade do sonho um valor igual àquele com que se favorece tão generosamente a atividade de vigília e que por conseguinte, executam as ordens do sonho, na vigília. Por esta equitativa concepção da vida dupla, o próprio Nerval foi amaldiçoado no século.

                                                                         Alberto Seveso

“Mas, ficai sabendo, faces pálidas, que além do sono, vêm de direito a meus territórios-fantasmas todos os outros estados humanos: recusas de agir, cãibras da vontade, paralisias do vir-a-ser individual, embargos do fluxo metafórico da consciência superficial, brechas na direção de zonas noturnas, os climas interditados onde reina aquele que diz 'não' à vida: o 'eu', o impossível.

“Notai agora esta definição de universalidade que apresento aos zoólogos: o que melhor diferencia o homem do animal é o cachimbo.

“Que me perdoem, quanto ao último termo deste aforismo, por fazer um sacrifício à necessidade de imaginar, de 'ser concreto', de acordo com o gosto da época e por acrescentar uma explicação simples e lúcida: conforme uma imagem retórica bem conhecida, dando o continente pelo conteúdo, dizendo cachimbo quero dizer todos os produtos que servem, mais ou menos, para provocar artificialmente o sono. Eis ainda uma verdade banal e muito clara sobre a qual jamais se pensa, isto é: todos os homens de todos os tempos históricos e pré-históricos, quaisquer que sejam sua moral, religião ou grau de civilização, sempre usaram esses produtos que as farmácias chamam de tóxicos, desde os filtros dos mágicos antigos e dos curandeiros de todas as tribos primitivas, as ervas santas dos Incas, a coca, o peyote do México, o bétele da Oceania, o ópio chinês e indiano, o haxixe e todas as variedades de cânhamos asiáticos e africanos, até os venenos modernos da Europa: éter, tabaco, morfina, heroína, cocaína e ainda o mais universal de todos, o álcool, sob suas variadas formas metropolitanas e coloniais.

“É bastante compreensível e lógico que essas drogas, destinadas a provocar mais ou menos depressa e mais ou menos lentamente o fenômeno de consciência que classifiquei, vagamente entre as recusas de agir, mas que sem dúvida incluí em meu reino Morte-na-Vida, sejam por outro lado nocivas aos instrumentos da ação, isto é, aos órgãos do corpo humano.

“Baseando-se nesta constatação bastante simplória é que, por um lado, por razões facilmente explicáveis, não sentem necessidade de usar esses produtos químicos, e, por outro lado, veem-se munidos legalmente do poder de atentar contra a liberdade privada de seus concidadãos, renunciaram de uma vez por todas a aplicar o princípio político da inação preconizado por Lao-Tse; certo número de homens julgaram ser possível acabar definitivamente com o consumo de drogas, proibindo-as.

“Tais proibições sempre têm fins aparentemente corretos, como o bem público, e objetivos menos aparentes, um pouco sujos, como por exemplo, a repopulação.

“A proibição do álcool nos Estados Unidos, assim como a do ópio, da cocaína, etc., em quase todos os países origina-se desta maneira depensar comum não somente a todos os legisladores, mas também a todos os homens que pensam 'direito', isto é, a maioria dos países civilizados.

“Quanto aos que pensam de modo diferente, respondem às proibições pela fraude ou pela inversão do ersatz. Mas todos os homens de toda sas nações continuam a provocar artificialmente em si próprios o estado de Morte-na-Vida, por meios à sua escolha.

“O tabaco nunca foi proibido, o álcool quase nunca; enfim, o consumo do ópio é recomendado na Índia e na Indochina. A parcialidade destas proibições nunca foi determinada pelo caráter mais ou menos nocivo da droga, como deveriam prová-lo, principalmente os dois primeiros exemplos, se o juízo do leitor não for completamente falseado pelas proposições da imprensa sobre os estupefacientes proibidos, bode expiatório dos higienistas e seus servidores. Assim, eu, Morfeu & Cia., que atualmente tenho o truste das drogas proibidas no mundo, pretendo responder aos jornalistas pagos por meus concorrentes para denegrir minha mercadoria. E vou defendê-la com imparcialidade.


“Sim, senhores da continência, neste assunto, como em todos os outros, aliás, existem os mais funestos mal-entendidos, desde os mais grosseiros até os mais sutis. Comecemos por observar que, sendo grande parte dos meus estupefacientes o apanágio de uma ínfima minoria, a grande maioria que os ignora faz de seus malefícios uma ideia totalmente lendária, ideia sabiamente alimentada pelos repórteres que sempre procuram o horror romântico barato. Nas regiões onde todo o mundo consome o álcool em quantidade mais ou menos grande, não existe ninguém, a não ser umas velhas solteironas, cheias de boas intenções, que creia nas vantagens da Liga Contra o Álcool. Todo mundo os conhece, em sua roda, bêbedos inveterados e exagerados, vendendo saúde e dez vezes centenários. Ao mesmo tempo, podemos rir comparando os cartazes grotescos onde pintam “o inferno dos viciados em drogas” (sic e resic e resic) – e na falta de mais ampla informação, o público calca sua opinião nestas caricaturas – comparando-os, com a inofensiva realidade.

“Inúmeras vezes, visitando meus fiéis, acompanhei com andar claudicante, os passos maiores e mais longos de célebres repórteres, aventurando-me em antros de fumo e em cafarnauns mal iluminados e decorados com trastes de toque asiático, onde os bravos e alegres rapazes contavam, dando tapas nas coxas, estórias licenciosas e até mesmo sádicas. Amargas decepções afligiram vossos espíritos embrutecidos por previsões sepulcrais, quando descobrísseis autênticos e antigos intoxicados, inveterados adeptos de estupefacientes formidáveis, mas também amigos de boa mesa, bom vinho, e, cúmulo da abominação, muitas vezes tendo rebentos igualmente imbecis, galhofeiros, gordos, bochechudos e tão prósperos quanto os pais. E, se vivêsseis algum tempo em contato com esses forçados do mal, logo veríeis que sua vida é regrada, que cuidam de seus negociozinhos, que têm as mesmas preocupações dos outros bacanais e que seu 'vício',enfim, não tem em sua vida um papel mais amplo, mais demolidor e nefasto do que outro entre os mais fantasmagóricos, a masturbação, por exemplo. Além do mais, para tornar vossa desilusão irremediável, por mais consternadora que fosse tal constatação – que os efeitos das drogas mais virulentas são incomparavelmente menos violentos do que os do álcool, pois não somente eles nunca têm delírios alucinatórios, mas levam a impudência ao ponto de jamais ficarem embriagados. Para eles, tudo se limita a uma vaga euforia. Só o terrível pó branco que é um pouco excitante.


“Desafio qualquer pessoa a contradizer-me neste ponto. É o certo abuso de meu produto que provoca às vezes os dois temíveis fantoches, meus primos, a Loucura e a Morte, mas o faz menos frequentemente do que o abuso do álcool. Sim, pois o álcool é meu melhor tóxico, e os viciados em drogas em geral são indivíduos de temperamento delicado demais para suportar longamente a embriaguez alcoólica.

“Se esta parte de meu império carece um pouco de lirismo, se todos os meus vassalos não são lá muito bonitos, a culpa é de vossa estúpida humanidade.

“Alguém poderá objetar, inteligentemente:

-Mas se por acaso, tudo o que declaras for verdadeiro (sede polidos), as terríveis proibições das quais falavas agora há pouco são certamente um pouco ridículas (olá, um ponto ganho), mas teu erro não é muito grave; evita, aos predispostos, hábitos maléficos, se não muito perigosos, pelo menos sem interesse!

“Ora, para com isto, infeliz! Quem é o miserável que pronuncia essas palavras afônicas? Eu o  repreenderia rudemente pela temeridade de seu julgamento, se não percebesse que esse mesmo infeliz, por um artifício de retórica ultragasto, sou eu mesmo. Para, portanto, infeliz, digo eu, pois não sabes por que motivo os viciados em drogas tomam drogas.

“Na noite impura de lama e sangue, onde a humanidade, assim como um esfolado arrasta sua pele, vai arrastando sua vida miserável e sofrida, minuto a minuto, montanha feita de élitros de insetos aglomerados, na noite impura de lama e lava, onde ninguém se reconhece a si próprio, eu Morfeu-o-Fantasma, eu, Morfeu-o-Vampiro, reino, tutelar e cheio de sarcasmo, sobre meus rebanhos malditos, como o rei condor rodopiando nas nuvens sobre uma horda de lebres cavalgadas pelo medo através de uma estepe árida, imensa e sem fendas como a representação geográfica da rotundidade do globo terrestre.

“E, se não Maldoror, farol do mal despertado na noite da terra, caem todas as lebres humanas fascinadas pelos círculos concêntricos que descrevem rapidamente meus olhares morfeanos. Sim, caem por terra, a cabeça separada da de seus sósias, nas torrentes subterrâneas do sono que se vão jogar no lago da morte. Mas, para alguns privilegiados somente, disseminados através de todos os tempos e de todos os espaços, multiplico a pequena morte e aperfeiçoo sua imagem até torná-la assíntota do mais autêntico trespasse, doando-lhe a poeira estrelar que cobre minhas asas, os parasitas mordedores que as povoam, os vapores que delas se elevam e os tubos de suas plumas transformadas em cachimbos.


“Mas estes seres eleitos pela maldição noturna são e permanecerão relativamente raros; meu império – infelizmente – está sujeito às leis biológicas.... As estatísticas demonstram facilmente que – com exceção de algumas personalidades superiores bastante evoluídas para fugir à maioria das contingências sociais (quantidade, se não qualidade, negligenciável) - meus súditos tornaram-se maioria, legião, unanimidade nas raças em declínio, nas tribos envelhecidas que agonizam. Pensemos no alcoolismo dos índios da América do Norte. São eles a monstruosa exceção entre os povos que vivem sua fase conquistadora de expansão. Em todo o caso, algumas miseráveis leis de proibição jamais poderão impedir essas gigantescas e fatais reações étnicas.

“Em vossas moribundas cidades da Europa, onde se gastam em seus últimos contatos todas as raças e todas as suas fases, vedes lado a lado todos os meus malditos, as vítimas dos fenômenos étnicos e as de dramas individuais, percebidos até agora pela 'psicologia dos estados', ainda desconhecida no conjunto de sua teoria e que Gilbert-Lecomte oporá, quando chegar a hora, a todas as velhas asnices derivadas da 'psicologia das faculdades' que apodrecem nas Sorbonnes deterioradas. Não há dúvida de que escapam ao meu domínio uma maioria de indivíduos que sentem a respeito das drogas uma repulsa verdadeira e invencível, que apenas reforçam os imperativos morais. São seres suja mocidade orgânica, que nada tem que ver com a idade, mas que passa tanto quanto por ela, faz com que neles predomine o 'instinto de autodestruição' do qual nunca ousamos falar e que, no entanto, tem um lugar igual na maioria das consciências humanas.

“Mas, diante desses homens ditos sadios, para quem o repouso de cada noite, mesmo reduzido ao mínimo, é ainda um fardo pesado do qual só desejariam libertar-se para agir melhor, há outros, os amantes dos longos sonos sem sonhos, aqueles que um mal desconhecido atormenta e para os quais a felicidade está na Morte-na-Vida. Há, principalmente, pesados e impiedosos, no campo fechado do corpo obscuro, os combates entre os inimigos mortais, querer-viver e não-agir, volúpia de poderes e outras mais pérfidas, do querer que agoniza em crepúsculos fúnebres, em declínios de vertigens.

“Entre os homens triplamente marcados pelo meu signo, descobrireis o resultado dessa antinomia em todos os degraus da escada dos valores. Depois de uma maioria de deformados hereditários, nos quais o gosto pelas drogas não passa de uma reação animal contra o não-senso que constitui sua vida tarada, e vereis que até alguns grandes forçados, amaldiçoados pelas tempestades e pelas borrascas que são sempre as terríveis vozes do espírito amaldiçoado, e sucumbindo à desonra de serem homens.

                                                                                                                         Jana Stovakovic

“Há, na realidade, para certo número de seres de sensibilidade super aguçada, uma consciência de estados opostos às vezes intensamente exaltada e às vezes dolorosa. Os sinais dessas crises exageram-se em alguns  predestinados, monstruosos só pelo fato de terem no fundo de si mesmos, como sua própria condenação, um elemento sobre-humano que ultrapassa e contradiz sua época, fulgurações do espírito ou energia física gigantesca. Tais elementos bastam para desajustar enormemente uma vida humana. Em primeiro lugar, por seu caráter antissocial: provocam ações irredutíveis ao julgamento universal do comum dos homens, que se vingam traçando à volta do maldito um círculo mágico que o isola; provocam a incompreensão odiosa e os constrangimentos niveladores que o forçam à amargura da solidão, também chamada 'loucura'. Por outro lado e em segundo lugar, por seu caráter antifisiológico no plano individual; a pura violência, que é sua natureza, ganha, em alguns anos, das mais fortes máquinas humanas.

“E, agora, admitamos este princípio que é a única justificativa do gosto pelos estupefacientes: o que todos os viciados pedem às drogas, consciente ou inconscientemente, não são as volúpias equívocas, a hiperacuidade sensual, a excitação e outras balelas com as quais sonham todos os que ignoram os 'paraísos artificiais'. É única é simplesmente uma mudança de estado, um novo clima onde sua consciência deverá ser menos dolorosa.

“Jamais poderemos compreender todos os inimigos, as pessoas de humor igual e serenas, os franceses médios, os burocratas da inteligência, todos aqueles cujo espírito, instrumento primitivo e grosseiro, mas inquebrável, está sempre pronto a entregar-se a seus hábitos cotidianos, sem jamais conhecer a noite sólida do embrutecimento petrificado, nem a agilidade milagrosa do clarão que cega. Eles não percebem que, em oposição aos peixes de boca redonda chamados ciclóstomos, os psiquiatras batizaram com o vocábulo 'ciclotímico' certo número de 'doentes' cuja vida decorre em alternâncias infernais e regulares de estados hipo e hiper, de depressões e de entusiasmos espirituais. Frequentemente, aqueles que conhecem a dor lancinante dessas depressões preferem recorrer ao suicídio.

“Mais incompreensível ainda será o estado de consciência assustadoramente clara. Trata-se da dor pouco comum ao homem de julgar-se de repente 'inteligente' demais. É inútil tentar fazer nascer, num espírito que não a experimentou, a aproximação deste estado que, segundo um determinismo desconhecido, num instante súbito de horror frio e tenaz do véu rasgado dos antigos mistérios. Ante a mais absoluta disponibilidade da consciência, isto significa a lembrança brusca da inutilidade do ato em curso, tornado símbolo de todo e qualquer Ato, diante do escândalo de ser, e de ser limitado, sem conhecimento de si mesmo. Essência da angústia em si que engendra os loucos, que engendra os mortos.

              

“E não é o obscurecimento reencontrado do estado de consciência normal e interessado na vida cotidiana, que pode um homem fugir da lembrança desta luz absoluta que mataria um cego vivo. Embora tenha sido apenas uma entrevista na fenda de um relâmpago, ela deixa na cabeça humana um câncer imortal. Sim, pois não podemos opor um estado habitual, que seria a norma, a outros estados que chamaríamos de patológicos, porque são percebidos imediatamente como inferiores ou superiores àquele. Há apenas estados mais ou menos dolorosos e a atitude normal do homem é provocar em si o estado de menor sofrimento. Assim sendo, a lembrança de um estado superior (por ser mais luminoso), ao estado dito normal, basta para tornar este último intolerável. Seria então preciso mudá-lo o mais frequentemente e o mais longamente possível. Infelizmente, para a clareza desta exposição, não é aqui oportuno examinar os diferentes meios capazes de fazer mudar uma consciência de planos que vão em princípio, da inconsciência absoluta à consciência total e onisciente: eis aí o princípio de toda uma ética dinâmica e imediata. Mas, no caso de que nos ocupamos, basta saber que o uso de estupefacientes, tomados em quantidade adequada, é inegavelmente um desses meios. Sim, pois cada droga gera um estado específico: a embriaguez do álcool, o kief do ópio e mais geralmente, a euforia dos alcaloides, etc. E se é impossível, no momento presente, encarar o valor mortal desses estados mais dolorosos, para não dizer inferiores ou superiores, as drogas certamente salvaram muitas vidas.

“Além do mais basta dizer que os estupefacientes são considerados por alguns místicos, por paradoxal que isso possa parecer, como meios de ascetismo. Claro que nunca poderiam ser considerados como geradores de êxtases, pois seus estados específicos estão nas antípodas, nem mesmo como favoráveis à contemplação, e sim como contravenenos. Na vossa civilização moderna, principalmente, onde o corpo humano fica degradado pelo excesso de alimento, pela febril superatividade...

“Em vão amordaçadas por vossas leis sociais, dormem entre vós energias destruidoras que poderiam fazer voar o mundo pelos ares. Por seus olhares incendiários, reconheço, nos terrenos desertos, Átila, Genghis-Khan, Tamerlão. A embriaguez do álcool é para os operários, o mais nobre protesto contra a vida sórdida que os fazem levar à espera da morte, enfim, do pensamento do Ocidente, à espera do cataclismo futuro, aureolado de revoluções, eu, Morfeu, moldo as hordas vindouras de acordo com minha rude higiene. Enquanto espero a hora, é sobre si mesmos que exijo que eles exerçam sua força de destruição. E nas mutilações voluntárias, os envenenamentos terríveis dos álcoois que fazem o ser ofegante rolar nas margens da morte, os golpes de cabeça nas paredes, todos os sofrimentos que me foram infligidos são os únicos critérios que me asseguram da existência de homens fisicamente desesperados, suficientemente mortos em sua própria individualidade para demonstrar na face o sarcasmo impassível do desinteresse perante à vida, único penhor de todos os atos sobre-humanos.”

E, enquanto, frenético, Morfeu-o-Vampiro desaparecia devorando-se a si mesmo, seus fiéis gritavam:
“Faze-nos durões e morde até matar!”

 


(Texto completo transcrito da antologia A experiência alucinógena.)