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Olivier de Sagazan e a Transfiguração

Eis que chegamos à 50ª postagem nesse blog! Entre minhas síncopes criativas e períodos infrutíferos, sigo tocando esse barco etérico. E para tomar esse lugar na ordem de minhas obscenidades, trago para vocês uma performance do artista francês Olivier de Sagazan.

Sagazan é mais uma das provas de que o espírito do surrealismo é inquebrantável e segue atormentando cérebros estéreis e inspirando iluminações profanas dos artistas e poetas profetas do caos. Não vou falar nada sobre a performance, porque muito dificilmente você já viu algo do tipo. Testemunhe agora um fenômeno extremamente peculiar:

                                             

Cada vídeo de suas performances é único. Olivier também é escultor e faz incríveis obras pintando sobre as fotos tiradas durante sua performance. Entre no site oficial do artista para conhecer mais de seu mundo fascinante e perturbador: sagazan

Balfour




cristãos sionistas com princípios conservadores e fetiches apocalípticos ébrios de delírios bíblicos decretam genocídios proféticos bombardeios messiânicos sacrifícios antedeluvianos espetáculo escatológico dos aquitetos do fim do mundo

Esse parágrafo espasmódico foi expelido por mim após algumas horas de pesquisa sobre a história do Oriente Médio. Meu cérebro estava saturado de informação sobre como imperialismo ocidental subjulgou o mundo árabe, manipulou seus líderes, instigou guerras e traiu povos em alianças trapaceiras para garantir o controle da hegemonia europeia na região. Conhecer o turbilhão que é a história do Oriente Médio no Século XX é essencial para procurar entender a geopolítica atual e o impacto do sionismo na constante desestabilização da região.

Na foto, soldados israelenses invadem a mesquita Al-Aqsa em 1967.

                                              

O vídeo acima conta a história da fundação do estado de Israel por figuras da elite do Império Britânico, entre elas o Barão Walter Rothschild, o Primeiro Ministro David Lloyd George e Arthur James Balfour, que deu o nome à Declaração de Balfour. A correspondência entre Balfour e Rothschild explicitava a posição do governo britânico em favor do estabelecimento de uma nação judia na Palestina. Esses homens eram cristãos sionistas de formação profundamente religiosa e tendo aprendido os nomes de colinas e vales de Jerusalém antes de conhecer as paisagens da Inglaterra, Balfour era a força que canalizava os sonhos bíblicos de um imaginário anglicano colonialista que já via a "terra sagrada" como parte da Inglaterra e a Inglaterra como uma "terra sagrada". Acreditando serem agentes que viabilizariam o cumprimento das profecias bíblicas que falavam do retorno dos judeus, o povo escolhido, para a terra prometida, esses cristãos sionistas do mais alto escalão declararam o começo do jugo dos povos árabes e a perpetuação do domínio ocidental na região sob a forma de um poderoso Estado gestado e nutrido pelo mais poderoso Império do mundo. Um Estado bélico desde sua formação, com uma fixação colonialista e uma justificação sagrada para o domínio, a consagração final das cruzadas cristãs.

Jerusalem (William Blake)

        "And did those feet in ancient time
        Walk upon England's mountains green?
        And was the holy Lamb of God
        On England's pleasant pastures seen?
       
        And did the Countenance Divine
        Shine forth upon our clouded hills?
        And was Jerusalem builded here
        Among these dark Satanic Mills?
        
        Bring me my bow of burning gold!
        Bring me my arrows of desire!
        Bring me my spear! O clouds, unfold!
        Bring me my chariot of fire!
        
        I will not cease from mental fight,
        Nor shall my sword sleep in my hand,
        Till we have built Jerusalem
        In England's green and pleasant land."


Ó Blake, poeta profeta delirante, será que um dia imaginou a extensão da fantasia glorificada em sua poesia?

Aparições poéticas - Planeta Guerra


Planeta Guerra - uma ode à hipocrisia
Estratégia de ação diversa
Operações psicológicas de dominação
Submissão mental sistemática e brutal
Destruição de sonhos e sentimentos
Covardia bélica infanticida
Internacionalmente lícita, legal, protocolar
Apatia do consenso arquitetado
Duas linhagens da mesma praga
Parasitas mentais
O medo primitivo

Germina o ódio destrutivo
Ideias de aço

Alimentam o mais profundo desespero
Que tira do homem sua humanidade
Gera monstros atormentados
Vítimas do laboratório global
Complexo industrial de produção do trauma
Grande câncer cogumelo atômico
No núcleo da mente
Símbolo definitivo

Filhos do apocalipse abençoados pelo nada
Ungidos de veneno num êxtase tóxico
Orgasmos sifilíticos de odor aristocrático
O rigor dos túmulos é a medida disciplinar
Hierarquia de horrores
A grande ordem

Ciência ancestral da manipulação mental
É uma realidade sustentada pela ignorância de si
O medo é o regulador da sobrevivência
O terror é a coleira dos povos
A insegurança é a chibata da consciência
A paranoia é o vício dos atentos
O dinheiro é a unidade geral da felicidade
O excesso é o ideal da miséria
A dicotomia dos extremos é condicionada
Fobia epidêmica selvageria social
A inveja é o motor de tanta dor
Idolatria do sistema educando os oprimidos a adorar fantoches
Transtorno emocional coletivo
Relação de conflito
Ódio é amor

Estado fraternal
Força policial

Matam seu vizinho e abraçam seu filho
Pacificação blindada ungida à bala
Sacrifícios de sangue
Hecatombe-oferenda

Ferida cósmica nutrindo o vampirismo planetário
Coração negro do vazio sideral
Sedução voraz
A fome do absurdo

Martelo magnético pregando as correntes da submissão
Levando-nos ao limite da razão
A vida que se esvai estancando a ilusão
Acabou a alienação
(E agora?)

Jaguaribe Carne - Alimento para a Guerrilha Cultural


Documentário de 2007 que conta a trajetória do grupo.

Jaguaribe Carne não é uma simples banda. É um extenso projeto de militância social cuja expressão musical se manifesta com diversos tons. Desde os anos 70, Paulo Ró e Pedro Osmar agregam todo tipo de gente na plataforma Jaguaribe Carne, no bairro Jaguaribe em João Pessoa, capital da Paraíba.

"Liberdade
Liberdade
É o único sentimento de revolta"

No quintal da casa de Dona Madalena, o barulho que os jovens irmãos Pedro e Paulo faziam não era brincadeira. Ou melhor, era. Eram experimentações com objetos comuns, latas, panelas, copos e corpos, tudo que estivesse à mão. As sonoridades e ritmos improvisados abriram caminho para a expressão musical e poética. Com o tempo, o projeto cresceu e começou a atuar fora da esfera sonora. Não vou desenhar só porque "não sei desenhar"? Não vou fazer um poema porque não sei escrever algo catedrático? Pro diabo! A atitude de quebrar com a fragmentação da expressão artística provocava as pessoas a se apoderarem das diferentes formas de comunicação e arte.  

"Dalva me falou
Dalva me falou
Que estava cansada de ficar quieta
Que estava cansada de ficar quieta
E vocês
E vocês
E vocês
O que me dizem?"

Cada capa do disco instrumental de 1983 é única. Depois da impressão em capa branca com o logo da banda, o grupo incentivou que cada pessoa que pegasse um disco fizesse nele uma intervenção própria.
A democratização do conhecimento, a mobilização popular e a transgressão do estabelecido são ações que não se reduzem à música. Guerrilha cultural é o conceito evocado pelo grupo para explicar o espírito do seu movimento. A provocação sempre foi a tônica de Pedro Osmar para despertar o desejo de ação. O projeto Fala Jaguaribe, começado em 1982, teve como uma das sedes a casa de dona Anunciada, que servia para agregar crianças e jovens da região ávidos para construir uma movimentação popular. Mutirões de pintura, oficinas de percussão criativa e as mais diversas intervenções artísticas ocuparam ruas de João Pessoa.

"E vem no vento
E vem na cor
E vem de dentro
E vem da dor"


Para o Jaguaribe Carne, música popular não é aquela estabelecida comercial ou tradicionalmente. Pelo contrário, é música livre dos padrões estéticos estabelecidos. É música experimental, música manifesto, canção de protesto. É barulho, cacofonia, ruído, vocalização. É exploração de territórios sonoros normalmente ignorados, é abertura dos ouvidos para sonoridades estranhas, é incentivo à criação independente da padronização. Baião e música concreta, samba e rap, psicodelia e lambada, marchinhas de carnaval e dodecafonias dançam de braços dados em suas composições ousadas e provocadoras.

"No exercício de voar
É fazer rima com as palavras
É pousar na imaginação
Das asas das asas das asas das asas"


O álbum Vem no Vento, lançado em 2003, conta com a participação de consagrados artistas nordestinos e músicos independentes que acompanham a jornada do grupo há décadas. Lenine, Elba Ramalho, Chico César e Zeca Baleiro são só algumas das figuras que somaram na criação deste disco único.

"Ô meu povo agora
Braços dados ora
Na coragem grita
Me dá me dá
Grita está na hora
Ô meu povo teima
Conquistar a terra
Sem ter medo avança"


Abaixo estão duas músicas dessa obra prima que é Vem no Vento, de onde tirei os trechos das letras que pontuam este texto. Mas esse é um disco para se ouvir inteiro, várias vezes e por muito tempo! Por isso aqui está o link para o download do álbum, disponibilizado pelo blog Música da Paraíba. Como não achei as letras na internet, transcrevi de ouvido mesmo. Você pode acessá-las aqui.


                                     

Aos que se Foram - Totonho e Pedro Osmar

Ligados na modernidade medieval
Elefantes de palha dessa indústria de cosméticos!

Por que você fez isso meu irmão?
Por que você fez isso meu irmão?

Ateando fogo à roupa no meio da multidão
Desesperado sem trabalho, sem saúde
sem morada, sem viver
Vendo a família sofrer
E sabendo que o país desse governo
Não vai a lugar nenhum

Me deu um nó no peito meu irmão
Me deu um nó no peito meu irmão

Não é assim, não é assim que se faz
Não é jogando a vida embaixo de um caminhão
Não é pulando do edifício se estatelando no chão
Que você vai resolver o problema da família
Que vive um mau momento
Envergonhado de ver seu pai pedindo na rua
Envergonhada de ver sua mãe se entregando nua
Pra pelo menos garantir
Um pouco desse feijão, um pouco dessa farinha
Um pouco desse feijão, um pouco dessa farinha
Que ora está na mesa, que ora está mesa

É duro ver um amigo nesse chão
É duro ver um amigo nesse chão

Depois de acreditar na Lei
Depois de acreditar em Deus
Depois de tanta Democracia
Depois de tanto Carnaval

Depois de acreditar na Lei
Depois de acreditar em Deus
Depois de tanta Democracia
Depois de tanto Carnaval

Por que você fez isso meu irmão?
Por que você fez isso meu irmão?
Por quê? Por quê?
Me deu um nó no peito
Por que você fez isso?
É duro ver um amigo nesse chão
Me deu um nó no peito
Por que você fez isso?
É duro ver um amigo nesse chão
Por que você fez isso meu irmão?
Por que você fez isso?
Me deu um nó no peito




Delírio de Gari - Diana Miranda, Paulinho Ditarso, Paulo Ró e Pedro Osmar

Os urubus são aves do paraíso
Os urubus são aves do paraíso

Os anjos são urubus travestidos
Os anjos são urubus travestidos

Os urubus são aves do paraíso
Os urubus são aves do paraíso

Os anjos são urubus travestidos
Os anjos são urubus travestidos

Dê-me ao luxo de catar isso
Dê-me ao luxo de catar isso
Dê-me ao luxo de cada isso