Luiz Gê
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Soft and gentle, sentimental
Hard as nails, and scissor mental
We want to be the ones who let you know
We've got a surprise for you
A savage eye and a carving knife
Frozen chaos, and a bloodshot life
A hungry insect and the way it stings
These are a few of my favorite things
Invisible signs that control your mind
And a person wants to take you away
Between the lines like the inferno
To pretend to know the way of the play
Soft and gentle, sentimental
The way of the play is incredible
My mood dictated by the wind that blows
And the dice that rolls
I am surrounded by the things I love
A dying creature and a chainmail glove
Inebriation and the joy it brings
These are a few of my favorite things
Soft and gentle, sentimental
Hard as nails, and scissor mental
We want to be the ones who let you know
We've got a surprise for you
A savage eye and a carving knife
Frozen chaos, and a bloodshot life
A hungry insect and the way it stings
These are a few of my favorite things
A hungry insect and the way it stings
These are a few of my favorite things
PTP é um projeto paralelo de Al Jourgensen, da veterana banda de metal industrial Ministry. O EP Rubber Glove Seduction que contém essa música foi lançado para disponibilizar o som do projeto que surgiu para fazer uma música para a trilha sonora do primeiro Robocop em 1987. A capa do disco ironicamente escracha o apelo comercial de estar envolvido com uma produção de Hollywood, típico Al.

Puro fetiche da mercadoria.
Scherzo Rajada - metralhadora poética marginal
...
Fumando uma idéia
dentro desse açougue metafísico :
É quase impossível
não pensar no paradoxo
quando irrompe nas esquinas,
a humanidade
com sua corrompida verticalidade
que jamais se tornará o diamante
...
Contra o Nazismo Psíquico, lançado em 2013 no soundcloud direto de Cubatão, é um álbum explosivo. Poesia, política e magia se encontram nessa encruzilhada do Universo para atacar as forças do autoritarismo psíquico vigente, "todas as tentativas de controlar, limitar ou destruir o caos formam a essência do nazismo psíquico". Mas o caos é indestrutível.
O nazismo psíquico se alimenta da diluição da angústia em um pragmatismo ou utilitarismo disfarçado de ética-estética do vazio que por sua vez se alimenta da lógica do possível imediato da ditadura das coisas.
Esses dois últimos fragmentos são excertos do manifesto que é a faixa título do álbum, mas somente um vislumbre dessa obra. Os poemas e a voz de Marcelo Ariel soam como um Gil Scott-Heron ("a revolução não será televisionada") em sua cadência falada, declamada, sem entonação melódica e sem pretensão de canto. Pra que canto? A presença da música negra e ambientes soturnos nos beats elaborados por Ismael Sendeski, Kleber Nigro e convidados dão força para os versos/cosmogramas de Ariel, que ostenta na manga suas influências. O álbum antropofágico reverbera diversas inspirações: os beatniks e poetas marginais brasileiros como Roberto Piva e Waly Salomão, o terrorismo poético de Hakim Bey, análises situacionistas e complexas leituras filosóficas, políticas e esotéricas são codificadas num fluxo ininterrupto.
O que escreve poemas, profere a sentença
do fundo do balcão de negócios
de altos negócios:
A polícia é o dragão de 3 cabeças
Os comandos são a cauda.
O que escreve é um poeta enterrado em Marcola
como Dante em Savonarola
À direita do dragão:
Advogados e seus chicotes de retórica
(A mesma desde Quintiliano)
(Brasília-DF)
Por duzentos euros
Advogados-romanos compram um dos ecos
da minha voz
lendo Santo Agostinho
dentro do Titanic-Negreiro
Ilustrando a conturbada paisagem mental das metrópoles brasileiras, a erudição se funde à revolta popular, usando todas as armas retóricas e poéticas no combate às máquinas mentais da ignorância, aos tentáculos discursivos do Império. Surrealismo cruel e vertiginosas passagens de ficção científica são ferramentas empregadas para expôr e extirpar a essência perversa da nossa organização social. Assim continuamos em Cadenza dos Comandos:
(América Latina)
O resultado:
No New York Times
a visão de um ônibus em chamas
envia um nítido
“Vão tomar no cu!”
ao mundo inteiro…
Esses ônibus, meus irmãos
são ilhas em chamas
no canto 12 do purgatório…
À nossa esquerda
Kafka conversa com Hitler
no celular
e isso será multiplicado…
(A Avenida Paulista evolui para uma elipse e é invadida pelo vazio das 4 da manhã)
Toquemos
Os coros invisíveis de Stockhausen
Nos carros, para os cães no futuro
Futuro jardim dos doze mil comandos.
No lugar de “Ordem e Progresso”,
se escreverá:
VIVA A POPULAÇÃO CARCERÁRIA!
Há pouco mais (na verdade muito) que pode ser falado sobre essa obra que me tomou de assalto. Quando ouvi a primeira faixa já soube que iria fazer uma postagem nesse blog. Ao ouvir o restante do disco, me intoxiquei. Então se você ainda não se convenceu, digo imperativamente: ouça o disco no soundcloud, onde os artistas também disponibilizaram todas as letras desse alucinado spoken-word.
Vida Guerra atirou o recém-nascido do quarto andar e antes que aquele boneco do Farnese chegasse ao chão ele explodiu e de dentro do recém-nascido saíram vários celulares com mp3 e mp20 câmera digitais holográficas...antes que eles...os celulares tocassem o solo se transformaram em mendigos do futuro formados na PUC,USP,UNICAMP, MACKENZIE e etc... mendigos e outros fantasmas invisíveis...visíveis por 30 segundos por causa das 9.000 câmeras da Avenida Geral (Ex-Avenida Paulista)
Um dos mendigos com mestrado em física antes de desaparecer ouviu o poema dizer:
- Basta você não ter dinheiro para ser um fantasma invisível lendo isto ou
- Basta você ter muito dinheiro para ser um fantasma vivo lendo isto.
True Beauty is Emptiness
Play me a song without any meaning
You know in the end it won't make a difference
Feel no remorse about anything
Emotions only hold you back and tie you down to a transparent lie
Accept that you're worthless
True beauty is emptiness
Accept that you're worthless
The true path is effortless
O amargo
Me dê uma cachaça
eu tô amargo demais
pra beber cerveja
ora veja
quem não gosta de fumaça
minha querida
não entende de bebida
nessa vida
eu já caí na desgraça
Versão da música da banda Eddie, tocada pela General Junkie de Natal.
Viva o Manguebeat.
Aquele dia... (Sequence Theory Project e o colapso da civilização)
From Cambodia to South Darfur, Salvador and Palestine
tears for all my brothers and my sisters in the war machine
Children killed for nothing, dying on the borders
with a bunch of hopes bleeding on their shoulders
In the cities of control freedom costs a lot of money,
refugees from all the world tortured by the army,
human trafficking and little girls in prostitution
Cops will shoot you in the head, prepare for Revolution
Soon it's gonna be that day for the weak and the poor
soon it's gonna come that day that we won't be ruled
"Sequence Theory Project é uma banda não comercial. No modo de vida atual o Homem humilha toda criatura viva em nome de dinheiro, poder, autoridade e ordem. Nós resistimos a essa situação direcionada com nosso projeto coletivo de música, criando um ambiente digital D.IY. para compartilhar nossa arte com o público." (tradução livre da descrição no bandcamp)
Aí está um interessante projeto musical moderno. Todo esse disco, The collapse of civilization é permeado pela ansiedade pandêmica da nossa civilização condenada. Diversas influências eletrônicas, de décadas atrás ou bem atuais, podem ser percebidas no álbum. A poesia amarga, porém esperançosa, ganha vida na rica voz da vocalista. Às vezes vacilante e rouca, em outras profunda e determinada, essa mina canta com a alma. Recomendo ouvir inteiro, tem uma ou outra meio chatas, mas é um bom álbum. Pelo bandcamp você pode baixar de graça ou dar uma contribuição para a banda. Não há muita informação sobre eles na rede, percebe-se que eu falei poucos detalhes sobre a banda em si porque também não sei muita coisa. Mas se quiser saber mais sobre ela, a página oficial deles no facebook está aqui: Sequence Theory Project.

A música que postei, esse dub bélico melancólico e esperançoso, foi uma das que toquei como parte do projeto Negras Barcas na intervenção da Rádio Gralha no Bar Fidel aqui em Curitiba. Foram vários programas propagados por caixas de som e transmitidos em FM. Na foto sou eu discotecando e falando atrocidades na rua. Rolou até uma leitura do Planeta Guerra.
Ah, e jogaram uma bomba em mim! Sério haha
KMFDM - People of the Lie
Isso aqui precisa ser mais espontâneo pra viver. Sem o peso da expectativa das grandes criações. Sem a íntima burocracia autodepreciativa. Sem receio da recepção.
KMFDM é uma banda alemã de metal industrial com uma veia distintamente eletrônica. Não é uma favorita, mas cheguei a baixar a discografia deles há uns anos, hoje desatualizada. Recentemente a memória de algumas músicas voltou à superfície da mente, delas uma frase em particular. "People of the lie". Pessoas da mentira? O povo da mentira. Adeptos da mentira. E por aí vai. Diz muito sobre o mundo desse jeito fodido que está, não é? E sobre nós. Sobre mim. A mentira é fácil. Vem naturalmente, automática. Sutil e matemática. Escorre bem pelos canos da máquina. A verdade é inconveniente como a bola de pelos que entope a pia. Como a privada entupida. Como sangue rançoso que transborda.
Qual é a natureza da realidade?
Whatever you believe Nobody cares
Whatever it is you think you know
Don't give a goddamn
Reality is bullshit
Reflection is a concept
Based on your own
Fucked up idea
Don't call it part of your faith
Another way you justify hate
Voices shouting under water
Drown you out and steal your air
Blinded by their own illusion
Through a crooked looking glass
Army of thieves
Blood on their hands
Lightning, fire and brimstone
They'll say whatever they can
Conspiracy theories, arrogant trash
They prowl alone and travel in packs
Voices shouting in the water
Drag you down and steal your air
Dissolute, diabolic
Snake oil salesmen everywhere
People of the lie
People of the lie
People of the lie
People of the lie
Whatever you believe
Nobody cares
Idol worship made up fantasy
Don't push your deity on me
Reality is bullshit
Reflection is a concept
Based on your own
Fucked up idea
People of the lie
People of the lie
People of the lie
People of the lie
Jaguaribe Carne - Alimento para a Guerrilha Cultural
Documentário de 2007 que conta a trajetória do grupo.
Jaguaribe Carne não é uma simples banda. É um extenso projeto de militância social cuja expressão musical se manifesta com diversos tons. Desde os anos 70, Paulo Ró e Pedro Osmar agregam todo tipo de gente na plataforma Jaguaribe Carne, no bairro Jaguaribe em João Pessoa, capital da Paraíba."Liberdade
Liberdade
É o único sentimento de revolta"
No quintal da casa de Dona Madalena, o barulho que os jovens irmãos Pedro e Paulo faziam não era brincadeira. Ou melhor, era. Eram experimentações com objetos comuns, latas, panelas, copos e corpos, tudo que estivesse à mão. As sonoridades e ritmos improvisados abriram caminho para a expressão musical e poética. Com o tempo, o projeto cresceu e começou a atuar fora da esfera sonora. Não vou desenhar só porque "não sei desenhar"? Não vou fazer um poema porque não sei escrever algo catedrático? Pro diabo! A atitude de quebrar com a fragmentação da expressão artística provocava as pessoas a se apoderarem das diferentes formas de comunicação e arte.
"Dalva me falou
Dalva me falou
Que estava cansada de ficar quieta
Que estava cansada de ficar quieta
E vocês
E vocês
E vocês
O que me dizem?"
![]() |
| Cada capa do disco instrumental de 1983 é única. Depois da impressão em capa branca com o logo da banda, o grupo incentivou que cada pessoa que pegasse um disco fizesse nele uma intervenção própria. |
"E vem no vento
E vem na cor
E vem de dentro
E vem da dor"
Para o Jaguaribe Carne, música popular não é aquela estabelecida comercial ou tradicionalmente. Pelo contrário, é música livre dos padrões estéticos estabelecidos. É música experimental, música manifesto, canção de protesto. É barulho, cacofonia, ruído, vocalização. É exploração de territórios sonoros normalmente ignorados, é abertura dos ouvidos para sonoridades estranhas, é incentivo à criação independente da padronização. Baião e música concreta, samba e rap, psicodelia e lambada, marchinhas de carnaval e dodecafonias dançam de braços dados em suas composições ousadas e provocadoras.
"No exercício de voar
É fazer rima com as palavras
É pousar na imaginação
Das asas das asas das asas das asas"
O álbum Vem no Vento, lançado em 2003, conta com a participação de consagrados artistas nordestinos e músicos independentes que acompanham a jornada do grupo há décadas. Lenine, Elba Ramalho, Chico César e Zeca Baleiro são só algumas das figuras que somaram na criação deste disco único.
"Ô meu povo agora
Braços dados ora
Na coragem grita
Me dá me dá
Grita está na hora
Ô meu povo teima
Conquistar a terra
Sem ter medo avança"
Abaixo estão duas músicas dessa obra prima que é Vem no Vento, de onde tirei os trechos das letras que pontuam este texto. Mas esse é um disco para se ouvir inteiro, várias vezes e por muito tempo! Por isso aqui está o link para o download do álbum, disponibilizado pelo blog Música da Paraíba. Como não achei as letras na internet, transcrevi de ouvido mesmo. Você pode acessá-las aqui.
Aos que se Foram - Totonho e Pedro Osmar
Ligados na modernidade medieval
Elefantes de palha dessa indústria de cosméticos!
Por que você fez isso meu irmão?
Por que você fez isso meu irmão?
Ateando fogo à roupa no meio da multidão
Desesperado sem trabalho, sem saúde
sem morada, sem viver
Vendo a família sofrer
E sabendo que o país desse governo
Não vai a lugar nenhum
Me deu um nó no peito meu irmão
Me deu um nó no peito meu irmão
Não é assim, não é assim que se faz
Não é jogando a vida embaixo de um caminhão
Não é pulando do edifício se estatelando no chão
Que você vai resolver o problema da família
Que vive um mau momento
Envergonhado de ver seu pai pedindo na rua
Envergonhada de ver sua mãe se entregando nua
Pra pelo menos garantir
Um pouco desse feijão, um pouco dessa farinha
Um pouco desse feijão, um pouco dessa farinha
Que ora está na mesa, que ora está mesa
É duro ver um amigo nesse chão
É duro ver um amigo nesse chão
Depois de acreditar na Lei
Depois de acreditar em Deus
Depois de tanta Democracia
Depois de tanto Carnaval
Depois de acreditar na Lei
Depois de acreditar em Deus
Depois de tanta Democracia
Depois de tanto Carnaval
Por que você fez isso meu irmão?
Por que você fez isso meu irmão?
Por quê? Por quê?
Me deu um nó no peito
Por que você fez isso?
É duro ver um amigo nesse chão
Me deu um nó no peito
Por que você fez isso?
É duro ver um amigo nesse chão
Por que você fez isso meu irmão?
Por que você fez isso?
Me deu um nó no peito
Delírio de Gari - Diana Miranda, Paulinho Ditarso, Paulo Ró e Pedro Osmar
Os urubus são aves do paraíso
Os urubus são aves do paraíso
Os anjos são urubus travestidos
Os anjos são urubus travestidos
Os urubus são aves do paraíso
Os urubus são aves do paraíso
Os anjos são urubus travestidos
Os anjos são urubus travestidos
Dê-me ao luxo de catar isso
Dê-me ao luxo de catar isso
Dê-me ao luxo de cada isso
A destruição do mundo
A Lei é aquilo que vem do Corpo
Abriu-se em sua mente um abismo de Sonho e Poesia
E no Nada se formam todas as Coisas
![]() |
| Alex Grey |
O que é a destruição do mundo?
Nossa pequenez ocidental é incapaz de refletir sobre a questão sem uma apreciação bélica. A sublimação deve acontecer através do fogo. Metal, chumbo, macaco, lagarto. Que somos nós na máquina do mundo? Um vírus, como nos diz o senso comum cínico da atualidade, ou algum tipo de ser quintessencial, segundo o pensamento mágico daqueles viciados em esperança... que importa? A realidade escorre sobre nossa percepção turva e pouco podemos fazer dela, enquanto equilibramos todas as sutilezas e inutilezas, obras e dobras, obrigações e desejos do carrossel extasiante da vida.
O império
ainda vive, mas agoniza. Suas entranhas-mecanismos de carnificina estão expostas, por mais que ainda tente cobrir
suas vergonhas com as túnicas da propaganda e do espetáculo.
Nem por isso está mais vulnerável,
pelo contrário, está
mais irascível e paranoico. Açoitando as massas com suas tropas de choque
para manter o fluxo em suas artérias artificiais, seus aparatos de manutenção de uma sobrevida macabra são colocados em força total. Deus-cadáver
de um templo invisível, mantido pelo seu secto de ratos aristocráticos,
reunidos em câmaras
e palácios, igrejas e plenários,
tribunais e quartéis, roendo seus próprios
rabos com os nervos fervilhando de medo.
A resistência cresce, e não só resiste, faz pressão. Da margem ao estômago do sistema, organismos patógenos para o funcionamento do grande esquema agem e transformam, infectam e transbordam. Se organizando em células de rebeldia, operam caoticamente em explosões desordenadas. Em afrontas suicidas ou em articulações programáticas, se alimentando do lixo decomposto nas galerias do grande cadáver que respira. Eles mordem e esperam, fazem fogueiras e feitiços, livros-bomba ecoando pelo espectro no furor da madrugada. O rugido que recusa ser enjaulado, destruindo os grilhões da exploração, desmistificando os códigos da ilusão. A tensão cresce, o ar sufoca.
Nas encruzilhadas e trincheiras é hora de alimentar os canhões. O passado está condenado a ruir, será dolorido, e talvez principalmente para nós. O tubo umbilical infecto que nos liga a essa matriz decadente precisa ser friamente extirpado. Saudades e nostalgias serão amargos venenos, velhos amores e dores queridas, meros sortilégios de um fantasma que se esvai. Faz-se necessário romper, radicalmente. Somos todos massa disforme no rolo compressor da história. Erigir monumentos e hastear bandeiras são gestos proscritos. A evolução pode nos levar a um fim, de fato. Nada é garantido, não contaremos com as argúcias do velho constructo chamado progresso. A constante é o caos, navegar é o mote. Mergulharemos nas constelações incertas do devir, empenhando-nos nos prazeres e mistérios do criar e do destruir. O que é a destruição do mundo? Talvez seja o seu amanhecer.
KALI MA!
Mão Morta - Nuvens Bárbaras
"A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos."
Apresento como primeira atração musical nesse blog, a banda portuguesa Mão Morta:
Em atividade desde os anos 80, é uma banda de enorme amplitude musical. Munidos de intensidade poética, profundidade filosófica, experimentação estética e muita ousadia, os Mão Morta seguem até hoje lançando discos e fazendo shows.
Amplamente conhecida em Portugal, ainda é desconhecida no Brasil, mas possui um secto oculto de admiradores. Pude testemunhar que isso é real durante a única apresentação que eles fizeram no Brasil, na Virada Cultural de São Paulo em 2013. Foi tenebroso.
A música acima é de seu disco de 2014, Pelo Meu Relógio São Horas de Matar. Como dito, não são uma mera banda de rock. Ouçam, e aqui está a letra para melhor apreciação da obra:
"Ouço as rodas dentadas do devir
A esmagar os tendões do tempo
Derrubando as árvores
Estilhaçando as pedras
Aproximando as ruínas
As tempestades tumultuosas que varrem as trevas
Trazendo o ocaso de um mundo em extinção
Engalfilhando as águas
As chuvas dos céus
Deixando as nuvens cair como granizo em flor
As cidades devastadas pela veloz língua do vento
O fogo crematório saltando
Enfunado
Cheio de ventos e marés
Numa velha imagem desenhada
Pela mão venenosa de um pesadelo
Vinda do sono
Em direcção ao princípio de todas as coisas
Os músculos vencidos
O corpo retende
Sem forças
Carcomido pela doença
Vergado pela dor
O eco batendo
À procura de uma resposta
Que só a húmida terra tumular
Pode fornecer
O presente envenenado pelas nuvens da barbárie
O futuro já não é
Uma fonte de esperança
Só nos resta a indigência
Ou morrer de morte certa
Como heróis de pechisbeque
Neste grande fogaréu
De aparato e opulência
Em que afara o capital
O futuro já não é o que era
Esgotada a reserva de alento
Que transforma a vontade em metáfora do novo
E em renovação de expectativas
Tudo parece caminhar para pior
Sem a perspectiva de um qualquer golpe de asa
Capaz de inverter essa direcção
E com isso
Cresce a certeza de uma enorme explosão incontrolada
E de consequências imprevisíveis
E que pode significar o fim doloroso
De todas as referências
Mas também o início
De uma aventura sem par
De exaltação da vida
E da entrega incondicional
Às paixões mais arrebatadoras
E amotinadas"
www.mao-morta.org/
- Faixa extraída do 18 de Brumário
Apresento como primeira atração musical nesse blog, a banda portuguesa Mão Morta:
Em atividade desde os anos 80, é uma banda de enorme amplitude musical. Munidos de intensidade poética, profundidade filosófica, experimentação estética e muita ousadia, os Mão Morta seguem até hoje lançando discos e fazendo shows.
Amplamente conhecida em Portugal, ainda é desconhecida no Brasil, mas possui um secto oculto de admiradores. Pude testemunhar que isso é real durante a única apresentação que eles fizeram no Brasil, na Virada Cultural de São Paulo em 2013. Foi tenebroso.
A música acima é de seu disco de 2014, Pelo Meu Relógio São Horas de Matar. Como dito, não são uma mera banda de rock. Ouçam, e aqui está a letra para melhor apreciação da obra:
"Ouço as rodas dentadas do devir
A esmagar os tendões do tempo
Derrubando as árvores
Estilhaçando as pedras
Aproximando as ruínas
As tempestades tumultuosas que varrem as trevas
Trazendo o ocaso de um mundo em extinção
Engalfilhando as águas
As chuvas dos céus
Deixando as nuvens cair como granizo em flor
As cidades devastadas pela veloz língua do vento
O fogo crematório saltando
Enfunado
Cheio de ventos e marés
Numa velha imagem desenhada
Pela mão venenosa de um pesadelo
Vinda do sono
Em direcção ao princípio de todas as coisas
Os músculos vencidos
O corpo retende
Sem forças
Carcomido pela doença
Vergado pela dor
O eco batendo
À procura de uma resposta
Que só a húmida terra tumular
Pode fornecer
O presente envenenado pelas nuvens da barbárie
O futuro já não é
Uma fonte de esperança
Só nos resta a indigência
Ou morrer de morte certa
Como heróis de pechisbeque
Neste grande fogaréu
De aparato e opulência
Em que afara o capital
O futuro já não é o que era
Esgotada a reserva de alento
Que transforma a vontade em metáfora do novo
E em renovação de expectativas
Tudo parece caminhar para pior
Sem a perspectiva de um qualquer golpe de asa
Capaz de inverter essa direcção
E com isso
Cresce a certeza de uma enorme explosão incontrolada
E de consequências imprevisíveis
E que pode significar o fim doloroso
De todas as referências
Mas também o início
De uma aventura sem par
De exaltação da vida
E da entrega incondicional
Às paixões mais arrebatadoras
E amotinadas"
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