Eis que esse circuito fantasma emerge novamente. Que fase, hein? Nem lembro quando foi minha última postagem, mas lembro que nem algo que escrevi recentemente, foi o resgate de um texto de 2013. Que ano fatídico esse! Mas enfim, não mergulhemos novamente em fluxos do passado.
A real é que estou preso numa prisão invisível que eu mesmo criei. An invisible prison encircles my mind, there is not a door, there is not a key. Fica foda se expressar, então vou escancarar. São tantas camadas de depressão e ansiedade armadas através dos anos que eu me alienei de mim mesmo. Me sinto imobilizado, como se tivesse desaprendido a me relacionar com os outros e comigo. Lembro que senti cedo na minha vida aquela sensação indizível de ser menos do que se é. De ser parte. De ser só um dos que habita dentro de si. Às vezes podemos soterrar esses fragmentos como bons coveiros da consciência, mas eles ainda estão lá. Merda, eles são você. Mas eu não estou falando de você, estou falando de mim. Independente de nossas semelhanças ou diferenças, hoje preciso falar de mim.
abro uma veia encho uma garrafa bebo
a droga mais inócua do mundo Como ouso eu, nessa era magnífica da informação ubíqua e serpentina, ausentar-me de meu posto nesse palco digital? Como posso abandonar minha audiência espectral e privá-los do espetáculo torpe dessa existência banal? Pois eu sou uma mentira. Não me reconheço. Sinto como se estivesse enterrado abaixo das mortalhas de mim que criei e ceifei, como disse antes. Estou aqui agora para desatar minhas veias e verter meu sangue imundo na tua boca, não é isso que tu queres, máquina?
I must find a way. I have to find a way. Out of here. O casamento do céu e do inferno, de William Blake, foi um livro seminal para minha formação como ser humano. Como aquele homem desafiava a convenção racional e desnudava a alma e o mundo como opostos irreconciliáveis em uma guerra eterna por todos os meios possíveis, mas que nessa guerra suas forças se entrelaçam e se abraçam numa estranha harmonia... Aquilo sempre me fascinou. E eu li isso pela primeira vez com quantos anos, 15? Que diabo, a curiosidade é mesmo o mais perigoso dos vícios. Com minha mente envenenada de tão sublime sabedoria e poesia, como poderia enveredar em paz pela estrada da vida? Mas mais uma vez, não nos afundemos nos pântanos do passado.
Esse talvez seja justamente o meu problema. É justo observar as transmutações de David Bowie para inferir como nessa vida é necessário se adaptar e se transformar. Em meio a suas operações cabalísticas e substâncias químicas, o réptil reconhece a natureza holográfica da realidade e assume uma faceta mais adequada para manter-se em vantagem na corrida da sobrevivência. Preciso reconciliar meus opostos e abandonar essa camada escamosa que me prende.
the dreadful pencil
Chega de simulações, simulacros! Chega de pilotos, precisamos de verdadeiros kamikazes. Agora é preciso de uma transformação definitiva para enfrentar a luta que se aproxima. Performático, lunático e tático. Preciso de uma força-tarefa de profissionais psiquiátricos e psíquicos. I gotta make a breakthrough!Devo continuar essa empreitada pseudoredentora quasesabotadora que é esse blog? Afinal, como confessar seus crimes e expor suas fraquezas e se transformar? As pessoas vão te lembrar pelo que há de pior em você. Mas puta que pariu, não é isso que elas querem? Não é isso que você quer, não é isso que eu quero? Algum vetor, um espelho alienado em que se exaltem as próprias qualidades mais torpes? Um simulacro confortável onde podemos nos identificar com os sentimentos de personagens para não ter que encarar os próprios. Que belo ponto da evolução, humanidade. Mas tu és uma vítima, não vou te culpar por minhas próprias fraquezas. Haha.
Sempre orbitando numa atmosfera marginal, desde a infância nunca me lembro de ter me encaixado harmonicamente em qualquer grupo. Já cedo me lembro de ser afligido por sentimentos de alienação, de coisas estranhas que nunca ouvi de outras crianças, como o medo do silêncio. É mais fácil fugir por alguma janela da percepção do que voltar a atenção para si. Algum doce intermediário para se colocar entre você e si mesmo. Alguma coisa abstrata pra ouvir, pra ver, pra rir, pra amar, pra foder, pra usar, pra esquecer.
Essa... coisa aqui já se aproxima de um fim. (o texto, não eu. por ora). Acho que eu precisava materializar umas palavras pra fincar elas nas paredes desse fosso e tentar escalar pra fora dele. Perceba que você e eu são pronomes intercambiáveis aqui, querem dizer a mesma coisa. Escrevo para mim nessa prática solipsista intermediada por outrem. Um espelho estilhaçado rearranjado conforme a espiral do tempo, refletindo em cada segmento da centopeia espectral que nos une em suas infinitas garras.
ATOMIC ROOSTER - BREAKTHROUGH (A música cuja letra invade esse texto e ilustra minha desesperada situação)
A minha mente é um enorme focinho. Sou um farejador mental. Escrever é
uma exploração olfativa das atmosferas, de suas ondas olorosas.
Um farejador até que alinhava, insinua conceitos, mas sem consistência. Por
isto ele não é um filósofo nem um pesquisador das ciências humanas. Não é
nem mesmo um intelectual no sentido forte do termo. Ele percebe e persegue
as ideias, explora o ambiente em busca delas como um cão caçador, como
um cão carniceiro, como um cão desejando a cadela no cio. Ele segue às
cegas, confiando apenas no seu faro sensível, não raro falho, titubeante, vago
e anexato.
O faro é arguto, mas imperfeito, ao contrário da visão, que é celestial, exata.
Ele funciona por rastros e por explorações contíguas e parciais. Já a visão
procede por analogias, panorâmicas e totalizações. Ele é incapaz de
conceitos, erudições, sedimentações de saber que se precipitam em teorias e
sistemas. O faro é rarefeito e intenso. Toda a tensão do cão está na ponta de
sua fuça irrequieta, nos mil poros frios do seu focinho molhado. O farejador
mental é um cão pensante, um cão pedante.
Ao invés da consistência do conceito, o farejador está interessado na sua
fecundidade, no cio da ideia. Ele a capta no ar e ela, em contrapartida, o
rapta pelo ar contagioso (a mente farejante é fascinada pela face virulenta
das ideias). Ele fareja atmosferas, os fios finos e quase imperceptíveis de
suas correntes de margens. Está envolto e atento às circulações mentais da
sociedade cujos fluxos de pensamentos e afecções perturbam suas ventas.
Mas farejar não é uma exploração sem rigor. Não se faz de qualquer jeito,
sem tino, sem treino, sem força. É apenas outro rigor, de margem, de
aragem, de específico absoluto.
O texto é um mapeamento traçado com o faro. Antes, os farejadores eram
ensaístas, articulistas ou ficcionistas. Alguns ficcionistas. Aqueles cujas
fábulas do romance eram desculpas para as digressões, cuja história do conto
era um pretexto para a ideia que se experimentava. Agora que a narrativa
escrita tem se tornado cada vez mais inviável, os farejadores textuais se refugiam mais e mais no ensaio, no artigo, na crônica ou, simplesmente,
deixam o texto escorrer de suas fuças. A coragem do texto se tecendo sem
limites nem textura/estrutura. O texto sem gênero/identidade. Fiação
embaraçada. A desistência dos pretextos.
O olfato, o tato e o palato são os sentidos mais materiais, mais baixos e
animais do homem. Subumanos. Mas o tato e o palato foram muito
humanizados pelas culturas, tornaram-se refinados, educados. O olfato não.
Talvez por ser muito fraco no homem, não foi necessária a sua doma. Ele
permanece, então, como seu sentido mais animalesco. O olfato é, nos
mamíferos e em muitos outros animais, o sentido do prazer, do desejo de
prazer, por onde o cio se pronuncia. É pelo faro que a carniça e a cadela
seduzem o cão. O canto de sereia que enlouquece o cão pensante são as
ondas de odor transpiradas pelas ideias. Pensar com o olfato, escrever
farejando é desejar a ideia para o prazer. Luxúria da mente. Texto trança,
texto transe, texto transa.
31/01/06 Acho que esse texto diz muito sobre o método urubu-máquina. Como bom carniceiro, farejo o que me soa mais interessante ao paladar para ser digerido por teus olhos na desolada paisagem sem fim da hiperinformação. Ainda não sei muito sobre esse autor para esboçar um tipo biografia. Mas sendo ele um verdadeiro pirata da linguagem, saqueando aqui e ali, lá e além, navegando sem hastear bandeira de nenhum domínio - nenhum império da cultura, nenhum clã de necromantes - será mais interessante mostrar aqui uma de suas poesias:
A obra completa de Wilton pode ser acessada clicando aqui.
... Fumando uma idéia dentro desse açougue metafísico : É quase impossível não pensar no paradoxo quando irrompe nas esquinas, a humanidade com sua corrompida verticalidade que jamais se tornará o diamante ...
Contra o Nazismo Psíquico, lançado em 2013 no soundcloud direto de Cubatão, é um álbum explosivo. Poesia, política e magia se encontram nessa encruzilhada do Universo para atacar as forças do autoritarismo psíquico vigente, "todas as tentativas de controlar, limitar ou destruir o caos formam a essência do nazismo psíquico". Mas o caos é indestrutível.
O nazismo psíquico se alimenta da diluição da angústia em um pragmatismo
ou utilitarismo disfarçado de ética-estética do vazio que por sua vez
se alimenta da lógica do possível imediato da ditadura das coisas.
Esses dois últimos fragmentos são excertos do manifesto que é a faixa título do álbum, mas somente um vislumbre dessa obra. Os poemas e a voz de Marcelo Ariel soam como um Gil Scott-Heron ("a revolução não será televisionada") em sua cadência falada, declamada, sem entonação melódica e sem pretensão de canto. Pra que canto? A presença da música negra e ambientes soturnos nos beats elaborados por Ismael Sendeski, Kleber Nigro e convidados dão força para os versos/cosmogramas de Ariel, que ostenta na manga suas influências. O álbum antropofágico reverbera diversas inspirações: os beatniks e poetas marginais brasileiros como Roberto Piva e Waly Salomão, o terrorismo poético de Hakim Bey, análises situacionistas e complexas leituras filosóficas, políticas e esotéricas são codificadas num fluxo ininterrupto.
O que escreve poemas, profere a sentença do fundo do balcão de negócios de altos negócios: A polícia é o dragão de 3 cabeças Os comandos são a cauda. O que escreve é um poeta enterrado em Marcola como Dante em Savonarola À direita do dragão: Advogados e seus chicotes de retórica (A mesma desde Quintiliano) (Brasília-DF) Por duzentos euros Advogados-romanos compram um dos ecos da minha voz lendo Santo Agostinho dentro do Titanic-Negreiro
Ilustrando a conturbada paisagem mental das metrópoles brasileiras, a erudição se funde à revolta popular, usando todas as armas retóricas e poéticas no combate às máquinas mentais da ignorância, aos tentáculos discursivos do Império. Surrealismo cruel e vertiginosas passagens de ficção científica são ferramentas empregadas para expôr e extirpar a essência perversa da nossa organização social. Assim continuamos em Cadenza dos Comandos:
(América Latina) O resultado: No New York Times a visão de um ônibus em chamas envia um nítido “Vão tomar no cu!” ao mundo inteiro… Esses ônibus, meus irmãos são ilhas em chamas no canto 12 do purgatório… À nossa esquerda Kafka conversa com Hitler no celular e isso será multiplicado…
(A Avenida Paulista evolui para uma elipse e é invadida pelo vazio das 4 da manhã) Toquemos Os coros invisíveis de Stockhausen Nos carros, para os cães no futuro Futuro jardim dos doze mil comandos. No lugar de “Ordem e Progresso”, se escreverá: VIVA A POPULAÇÃO CARCERÁRIA!
Há pouco mais (na verdade muito) que pode ser falado sobre essa obra que me tomou de assalto. Quando ouvi a primeira faixa já soube que iria fazer uma postagem nesse blog. Ao ouvir o restante do disco, me intoxiquei. Então se você ainda não se convenceu, digo imperativamente: ouça o disco no soundcloud, onde os artistas também disponibilizaram todas as letras desse alucinado spoken-word.
Vida Guerra atirou o recém-nascido do quarto andar e antes que aquele
boneco do Farnese chegasse ao chão ele explodiu e de dentro do
recém-nascido saíram vários celulares com mp3 e mp20 câmera digitais
holográficas...antes que eles...os celulares tocassem o solo se
transformaram em mendigos do futuro formados na PUC,USP,UNICAMP,
MACKENZIE e etc... mendigos e outros fantasmas invisíveis...visíveis por
30 segundos por causa das 9.000 câmeras da Avenida Geral (Ex-Avenida
Paulista)
Um dos mendigos com mestrado em física antes de desaparecer ouviu o poema dizer: - Basta você não ter dinheiro para ser um fantasma invisível lendo isto ou - Basta você ter muito dinheiro para ser um fantasma vivo lendo isto.
eu já tenho as minhas
próprias contradições. não conseguiria entrar pra algum partido ou movimento e
ainda abraçar as suas. ter de defendê-las ou criticá-las uma a uma para tentar
atingir um nível aceitável de coerência interna vestindo uma camiseta com uma
sigla. não dá. não me dê bandeira com símbolo algum. eu não vou segurá-la. não
tente me convencer a participar de militância publicitária que só realiza
propaganda e agitação superficial. entendo o poder da dimensão simbólica e
grande parte dele consiste em enganar. em mostrar, em discursar, em aparentar.
é o que aparece que importa. o ângulo certo e os retoques necessários. conhecer
as inseguranças e desejos mais secretos e mais universais e dedilhar seus
acordes com carinho. pouco importa o que não aparece. fora de quadro a cena
inspiradora com uma música emocionante não é nada. puro truque de palco. a
prisão da atenção. entretenimento - já viu a etimologia dessa palavra? pois é,
prender nossa atenção é o único recurso de sobrevivência pra todos os negócios
e instituições estruturais desse sistema. por isso seus artifícios e
sortilégios tem orçamentos estratosféricos e recursos fantásticos. produzem
fantasmas. reflexos superficiais de uma realidade refletida. mas refletida de
onde? refletida do que? onde está a fonte de luz? onde está o referencial? quem
encara o espelho? como na história do vampiro, só que às avessas. olho o
espelho e vejo o reflexo. mas eu não estou lá. lá? aqui. meu reflexo está ali,
minha imagem - minha linguagem inata, meu layout interativo intuitivo, minhas
configurações de autoimagem, meu reflexo refletido no espelho do outro. como eu
vejo o reflexo dos outros no meu espelho? será que essas imagens existem? só eu
que sou virtual? vampiro-às-avessas virtual? quais são as virtudes da
virtualidade? a mais óbvia é que você não existe. não de verdade. num mundo
justo todos serão considerados inexistentes até que se prove o contrário. se o
paradoxo não puder ser assimilado e instalado no sistema operacional, este não
será compatível com o ambiente da rede realidade. se a verificação do córtex
frontal resultar num erro de processador aborte a operação e tente fazer o
backup dos arquivos para outro dispositivo. o manifesto surrealista nunca
poderia ter conjecturado a natureza onírica destes tempos fluídos, quase um
século relâmpago depois. reflexos refratários em superfícies polidas ou
rachadas, sujas ou imaculadas, o reflexo que procura não é esse produzido pelas
leis da ótica - é um reflexo que te cobra banda larga. pacote de dados. qual a senha
do wi-fi? existe mais publicidade no mundo do que um ser humano de 128 anos
poderia absorver se ficasse grudado numa tela do parto ao caixão. some a isso o
entretenimento e as notícias. qual a diferença entre esses três mesmo? cada vez
mais parecidos, enredados, filhos da mesma indústria fértil e farta, filhos
pródigos da mesma ninhada bestial, eternos magotes famintos projetando suas
mandíbulas de hipopótamo para abocanhar um punhado da nossa atenção, uma ampola
do nosso espírito, para inocular seu feitiço narcótico, um sonho manufaturado
engenhado especialmente para sua satisfação, camadas de tratamentos de cores
para criar um mundo mais vívido que o seu, a magia da ilusão e da edição se
fundem com ternura em seu coração, quem é o novo ícone da revolução? a nova
popstar teen do clube do Mickey fez um vídeo de si ostentando um prolapso retal
e o novo passinho do Esquenta virou viral. abuso. alienação da mercadoria.
mercadoria que é o corpo. objeto e identificação. objetivo e indexação. é a
alma. uma nova promoção. promoção e pra mocinha. sonhos de transformação
transformados em merchandising. os meios de profusão transmitindo a
programação. transmentido pra população. informação, entretenimento, notícia,
propaganda, pronunciamento, publicidade o que discernir de toda essa lavagem?
miúdos. miúdos mergulhados na estática. doce ruído branco analógico, seus
fantasmas costumavam assombrar mansamente os lares das famílias que botou pra
dormir, como babá diligente ou janela do desespero, agora já não estão mais lá.
substituídos pelos erros digitais, glitches nos megapixels da sua tela,uma conexão que se encerra, qualquer melodia
reduzida à perpétua repetição de um décimo de segundo travado caído no gráfico
frustrado desconectado cordão umbilical que vinha arrastando a décadas
subitamente arrancado, conector usb não identificado. entorpecimento eletrônico
interrompido. narco narciso torceu as narinas pra substâncias físicas. o que
importa são as qualidades espirituais do ego - atenção. todos querem entreter.
com sua dor, com sua raiva, com a sua confusão, com a sua alegria. um riso ou
uma lágrima é o pagamento - devidamente contabilizado pelo google adsense. não
há nada pra revelar pois é tudo verdade. é tudo real. documental. suco
mental. extraindo leite de caixinha. longavida bandalarga e cocaboa – the millenial
dream
From Cambodia to South Darfur, Salvador and Palestine
tears for all my brothers and my sisters in the war machine
Children killed for nothing, dying on the borders
with a bunch of hopes bleeding on their shoulders
In the cities of control freedom costs a lot of money,
refugees from all the world tortured by the army,
human trafficking and little girls in prostitution
Cops will shoot you in the head, prepare for Revolution
Soon it's gonna be that day for the weak and the poor
soon it's gonna come that day that we won't be ruled
"Sequence Theory Project é uma banda não comercial. No modo de vida atual o Homem humilha toda criatura viva em nome de dinheiro, poder, autoridade e ordem. Nós resistimos a essa situação direcionada com nosso projeto coletivo de música, criando um ambiente digital D.IY. para compartilhar nossa arte com o público." (tradução livre da descrição no bandcamp)
Aí está um interessante projeto musical moderno. Todo esse disco, The collapse of civilization é permeado pela ansiedade pandêmica da nossa civilização condenada. Diversas influências eletrônicas, de décadas atrás ou bem atuais, podem ser percebidas no álbum. A poesia amarga, porém esperançosa, ganha vida na rica voz da vocalista. Às vezes vacilante e rouca, em outras profunda e determinada, essa mina canta com a alma. Recomendo ouvir inteiro, tem uma ou outra meio chatas, mas é um bom álbum. Pelo bandcamp você pode baixar de graça ou dar uma contribuição para a banda. Não há muita informação sobre eles na rede, percebe-se que eu falei poucos detalhes sobre a banda em si porque também não sei muita coisa. Mas se quiser saber mais sobre ela, a página oficial deles no facebook está aqui: Sequence Theory Project.
A música que postei, esse dub bélico melancólico e esperançoso, foi uma das que toquei como parte do projeto Negras Barcas na intervenção da Rádio Gralha no Bar Fidel aqui em Curitiba. Foram vários programas propagados por caixas de som e transmitidos em FM. Na foto sou eu discotecando e falando atrocidades na rua. Rolou até uma leitura do Planeta Guerra.
Revolta, provavelmente. Injustificada ou não? Estamos todos emaranhados de contradições, mas o mundo nunca foi em preto e branco mesmo.
Não tenho nenhum respeito por autoridades. A própria noção de autoridade, de hierarquia, me enoja. Do policial ao juiz, do pastor ao guru, até a autoridade paternal só me inspira desprezo.
A indignação paralisante do teatro de atrocidades em que vivemos me atinge de maneira aguda. Mas o cinismo decorrente do absurdo cotidiano também se faz necessário.
Não consigo me importar com minha imagem. Não me sinto compelido a compartilhar na internet meu apoio às diferentes lutas, necessárias e legítimas na sociedade. Procuro compreendê-las, apoia-las sim, mas não de maneira publicitária, pra ostentar imagem de engajado. Também não me importo de usar roupas de dez anos e outras manchadas.
Tudo isso me aliena, tanto do mercado de trabalho quanto do ambiente ativista superficial. Minhas habilidades interpessoais tem se degenerado aceleradamente. Me surpreendo de ainda ter amigos. Não uso as redes sociais de uma maneira que elas deveriam ser usadas, aparentemente. Aliás, rede social, no singular. Só tenho uma conta no facebook e já acho até demais.
Não tenho dinheiro e isso me faz perceber como os rolês que existem nessa cidade, os rolês que meus amigos vão, são fachadas medíocres pra alimentar o comércio. Que sentido faz sair se você não vai consumir? Beber também perdeu seu apelo. A cervejinha social, nem tenho vontade. Quando quero beber vou logo pra algo forte. Mas que preguiça disso também.
Quanto a amores, um desastre. Não tenho conseguido estabelecer uma conexão com ninguém. Me falta paciência pra burocracia do cortejo, um processo que geralmente também envolve dinheiro e se importar com a imagem.
A hipocrisia me revolta, mas também faço uso dela. Às vezes preciso de uma falsa salvaguarda, algo pra racionalizar um escudo, uma casca que me isole da brutal empatia que sinto pelo mundo, em todas suas bestialidades.
A maconha é um anestésico bom, necessário, mas fugaz. Assim como os filmes que são janelas para a imaginação. Tenho tido uma certa dificuldade para grandes leituras, minha percepção tem sido mais visual. Mais passiva. O que fode com o processo de escrever.
Aliás, o que é o escrever pra mim? Uma forma de ação, um vômito, um exorcismo, uma articulação, um ato de desespero? O que almejo com isso? Tenho duvidado. Uma dúvida venenosa, que sabota as aspirações. Mas se não posso contar nem com minhas pirações, o que me resta?
Não sinto mais a chama do desejo destrutivo e suicida de meus 18 anos, nem a chama da aventurança espiritual dos meus 20. Comprimido pelos blocos do materialismo, da percepção crua da história e da política, procuro extrair algo para ser meu combustível. Sei que posso fazer algo bom, que posso manifestar coisas estranhas na realidade banal. Mas saber não tem sido o suficiente.
Estudo comunicação, coisa a que decidi me dedicar depois do contato e experiência com comunicação livre, popular e autônoma. O empoderamento da linguagem, da transmissão, da ruptura à imbecilidade hegemônica. A possibilidade de criar espaços onde os significantes vigentes são destruídos, onde símbolos são reinventados, onde a linguagem tem de fato uma potência criativa. Uma potência destrutiva. E talvez seja aí onde procuro meu equilíbrio.
As correntes opostas no universo estão em mim, atuando. Entropia e evolução, verdade e manipulação, vontade e desilusão. Para operar essas forças não existem fórmulas. Não pra mim, pelo menos. Mas essa experiência é necessária. Esse blog. Ele não deve ser um espaço onde só coloco as coisas que passaram pelo impiedoso filtro de uma autocrítica doida por reconhecimento. Não. Também não deve ser um mecanismo que uso para passar pro mundo só o que há de forte e aguçado em mim. Assim isso empaca, como já empacou.
Seguirei esse experimento, meio mecânico, meio animal. Meio humano. O que pretendo com esse texto? O que me move? Talvez seja simplesmente meu instinto biológico, procurando convencer minha mente de que preciso viver. Talvez seja a máquina conceitual da mente procurando articular algum sentido pra existência banal. Mas aqui estou, inserido nessa porra, como você. Seguirei.
Limpando as aranhas de minhas entranhas, urubu-máquina não morre. E também não vive.
Juntando peças, símbolos que se conectam. Palavras ao vento esvoaçando em esferas estranhamente presentes. Enguias deslizando pelas vias do meu cérebro, eletricidade percorrendo meu sistema nervoso central, paisagens eletrônicas em janelas abertas, espelhos fictícios de uma nova era. Existência miúda e alienada. Deserto dos desejos, jardim das simulações. Abismo ambulante em brutais meditações. À busca de fantasmas, quimeras perdidas entre as camadas do tempo, lembranças fugidias de um passado inexistente. Uma vida de cacos e amargas manchas borradas. Caminhos interrompidos e rastros intocados, licores insípidos e amores negados, bagagem estúpida e desnecessária. Os venenos mais inócuos são aqueles que nos matam. Morremos de dentro pra fora. Ou de fora pra dentro. Mas o que vai por último é a casca.
O
texto a seguir, lançado postumamente em 1966, foi escrito por um poeta francês excomungado
do movimento surrealista. É um manifesto mordaz contra a hipocrisia da
proibição das substâncias que nos trazem gozo e estupefação desde a
aurora dos tempos: as drogas. Em uma prosa poética furiosa e
alucinada, Gilbert-Lecombe desvela com sua pena embriagada de morfina e
Lautréamont os mistérios que impelem os seres aos 'paraísos
artificiais'. Para explicar o sublime fenômeno da Morte-na-vida, o poeta
evoca Morfeu, entidade primordial do sonho, em sua encarnação como
traficante do absoluto. Uma obra sincera e visceral que traz o peso de
uma precoce crítica antiproibicionista e antimanicomial, através do olhar de um poeta que conheceu intimamente os prazeres e horrores do vício.
Para melhor apreciação, leia com esse som rolando:
Senhor Morfeu, Envenenador Público
Roger Gilbert-Lecomte
Se Claude Farrère – e possa ele jamais arrepender-se do que fez de melhor ao longo de sua carreira! Se Antonin Artaud e, principalmente, magnificamente, Robert Desnos, cada qual por seu turno, sozinho, trataram, sem tabu, do problema das drogas sobre o espírito após a promulgação da pouco inteligente lei de proibição (julho de 1916), nem tudo foi dito e o protesto não deve morrer: jamais será tão vivo como no momento presente para responder à diarreia jornalística documentário-moralizadora e principalmente policial sobre os “paraísos artificiais” (sic e resic e resic). Diários e hebdomadários, ilustrados ou não, maculam incessantemente suas colunas com reportagens retumbantes, feitas por escribas de todas as opiniões e de todos os sexos, sendo seu ponto em comum a profunda impotência em encarar corretamente uma questão sem dizer “amém” aos grosseiros preconceitos dos seus leitores. Que ele se apresente, este Petrônio dúbio sob a linha que “condena os vícios”, com um propósito menos abjeto do que o de condimentar seu texto com descrições truncadas dessas pretensas torpezas. O protesto aqui feito, certo de sua ineficácia, não visa resultado algum – apela simplesmente para a justiça desinteressada do espírito. Aqueles que, tanto neste caso como em outros, fazem questão de desorientar a opinião pública e alargar cada vez mais as fronteiras da idiotice, encontrarão aqui a expressão sincera do meu mais profundo desprezo.
Conforme o eixo do alto cilindro negro e brilhante, brincam de esconde-esconde e revoluteiam as visões fugidias vistas de soslaio; o pavor nos olhos das lebres orelhudas do medo. Sob o chapéu gigantesco, o Sr. Morfeu dissimula mais ou menos uma ausência de rosto. É dia, é noite; mas é sempre noite quando o Sr. Morfeu passa. Todas as polícias do mundo que o procuram jamais o encontrarão, por causa de seu porte, a tal ponto estranho, que o torna invisível. Por cúmulo da ousadia, ele ameaça:
ZdzislawBeksinski
“Quando eu passeava, inteiramente nu, pelas paisagens mitológicas, poucos altares me erigiam, é verdade, mas pelo menos respeitavam-me a carcaça em repouso sob minha cabeleira imensa e áspera como palha de ferro – foram vocês que me tornaram calvo, miseráveis! Quando eu fechava os olhos onde tubilhonavam mundos, como quando se guarda, após o trabalho, os instrumentos de precisão em seu estojo, deixavam-me contemplar em paz, em meio ao ruído da tempestade e dos sonhos, o nascer dos meteoros e fosfenas. Infelizmente, último detentor do segredo da vida, o Oriente agoniza agora! Ah! Celebrai magnificamente seus funerais antes que ele renasça e pule em vosso pescoço! Sim, pois seu despertar será terrível na face do mundo. Com meus pés aleijados não posso deixar de estar, de coração, entre as hordas subterrâneas das lívidas crianças da noite que brevemente pisotearão vossa imunda civilização. Pelo menos, faço o jogo deles no próprio local. Vou roendo lentamente, como um milhão de ratos, o Ocidente que me renega e não tomarei parte no desmoronamento desse colosso de pés de manteiga, cabeça de veado.
“Tendo-me conhecido sempre como bonachão negociante-de-sono, perguntais certamente que nova firma represento! Mas, mesmo que seja apenas pela atmosfera deletéria que me cerca e que emana principalmente de minhas orelhas de vampiro, sentis logo intensa e obscuramente o vasto princípio que propago. Quanto a exprimi-lo, bastante dificuldade teríeis. Quando muito, poderia apresentar-me como um laborioso gênio da Morte-na-Vida. Sou o senhor de todos os estados naturais ou provocados que 'prefiguram', simbolizam a morte e, portanto, participam de seu sucesso. Estes estados ocupam, na vida humana, um lugar muito mais importante do que se acredita. Lembrar-vos-ei, em primeiro lugar, citando Gérard de Nerval, esta constatação tão verdadeira, tão evidente, tão essencial, tão misteriosa, que todas as consciências modernas esquecem regularmente: o homem passa pelo menos um terço da vida dormindo. O fato de não dar atenção a tão simples verdade basta para falsear completamente o conceito atual de “vida humana”. Este lamentável esquecimento constitui uma das principais causas dos males presentes e do cataclismo futuro e próximo. É provavelmente para dar um exemplo que digo que são encerrados todos os dias, em asilos de alienados, homens cujo único crime é o de darem à atividade do sonho um valor igual àquele com que se favorece tão generosamente a atividade de vigília e que por conseguinte, executam as ordens do sonho, na vigília. Por esta equitativa concepção da vida dupla, o próprio Nerval foi amaldiçoado no século.
Alberto Seveso
“Mas, ficai sabendo, faces pálidas, que além do sono, vêm de direito a meus territórios-fantasmas todos os outros estados humanos: recusas de agir, cãibras da vontade, paralisias do vir-a-ser individual, embargos do fluxo metafórico da consciência superficial, brechas na direção de zonas noturnas, os climas interditados onde reina aquele que diz 'não' à vida: o 'eu', o impossível.
“Notai agora esta definição de universalidade que apresento aos zoólogos: o que melhor diferencia o homem do animal é o cachimbo.
“Que me perdoem, quanto ao último termo deste aforismo, por fazer um sacrifício à necessidade de imaginar, de 'ser concreto', de acordo com o gosto da época e por acrescentar uma explicação simples e lúcida: conforme uma imagem retórica bem conhecida, dando o continente pelo conteúdo, dizendo cachimbo quero dizer todos os produtos que servem, mais ou menos, para provocar artificialmente o sono. Eis ainda uma verdade banal e muito clara sobre a qual jamais se pensa, isto é: todos os homens de todos os tempos históricos e pré-históricos, quaisquer que sejam sua moral, religião ou grau de civilização, sempre usaram esses produtos que as farmácias chamam de tóxicos, desde os filtros dos mágicos antigos e dos curandeiros de todas as tribos primitivas, as ervas santas dos Incas, a coca, o peyote do México, o bétele da Oceania, o ópio chinês e indiano, o haxixe e todas as variedades de cânhamos asiáticos e africanos, até os venenos modernos da Europa: éter, tabaco, morfina, heroína, cocaína e ainda o mais universal de todos, o álcool, sob suas variadas formas metropolitanas e coloniais.
“É bastante compreensível e lógico que essas drogas, destinadas a provocar mais ou menos depressa e mais ou menos lentamente o fenômeno de consciência que classifiquei, vagamente entre as recusas de agir, mas que sem dúvida incluí em meu reino Morte-na-Vida, sejam por outro lado nocivas aos instrumentos da ação, isto é, aos órgãos do corpo humano.
“Baseando-se nesta constatação bastante simplória é que, por um lado, por razões facilmente explicáveis, não sentem necessidade de usar esses produtos químicos, e, por outro lado, veem-se munidos legalmente do poder de atentar contra a liberdade privada de seus concidadãos, renunciaram de uma vez por todas a aplicar o princípio político da inação preconizado por Lao-Tse; certo número de homens julgaram ser possível acabar definitivamente com o consumo de drogas, proibindo-as.
“Tais proibições sempre têm fins aparentemente corretos, como o bem público, e objetivos menos aparentes, um pouco sujos, como por exemplo, a repopulação.
“A proibição do álcool nos Estados Unidos, assim como a do ópio, da cocaína, etc., em quase todos os países origina-se desta maneira depensar comum não somente a todos os legisladores, mas também a todos os homens que pensam 'direito', isto é, a maioria dos países civilizados.
“Quanto aos que pensam de modo diferente, respondem às proibições pela fraude ou pela inversão do ersatz. Mas todos os homens de toda sas nações continuam a provocar artificialmente em si próprios o estado de Morte-na-Vida, por meios à sua escolha.
“O tabaco nunca foi proibido, o álcool quase nunca; enfim, o consumo do ópio é recomendado na Índia e na Indochina. A parcialidade destas proibições nunca foi determinada pelo caráter mais ou menos nocivo da droga, como deveriam prová-lo, principalmente os dois primeiros exemplos, se o juízo do leitor não for completamente falseado pelas proposições da imprensa sobre os estupefacientes proibidos, bode expiatório dos higienistas e seus servidores. Assim, eu, Morfeu & Cia., que atualmente tenho o truste das drogas proibidas no mundo, pretendo responder aos jornalistas pagos por meus concorrentes para denegrir minha mercadoria. E vou defendê-la com imparcialidade.
“Sim, senhores da continência, neste assunto, como em todos os outros, aliás, existem os mais funestos mal-entendidos, desde os mais grosseiros até os mais sutis. Comecemos por observar que, sendo grande parte dos meus estupefacientes o apanágio de uma ínfima minoria, a grande maioria que os ignora faz de seus malefícios uma ideia totalmente lendária, ideia sabiamente alimentada pelos repórteres que sempre procuram o horror romântico barato. Nas regiões onde todo o mundo consome o álcool em quantidade mais ou menos grande, não existe ninguém, a não ser umas velhas solteironas, cheias de boas intenções, que creia nas vantagens da Liga Contra o Álcool. Todo mundo os conhece, em sua roda, bêbedos inveterados e exagerados, vendendo saúde e dez vezes centenários. Ao mesmo tempo, podemos rir comparando os cartazes grotescos onde pintam “o inferno dos viciados em drogas” (sic e resic e resic) – e na falta de mais ampla informação, o público calca sua opinião nestas caricaturas – comparando-os, com a inofensiva realidade.
“Inúmeras vezes, visitando meus fiéis, acompanhei com andar claudicante, os passos maiores e mais longos de célebres repórteres, aventurando-me em antros de fumo e em cafarnauns mal iluminados e decorados com trastes de toque asiático, onde os bravos e alegres rapazes contavam, dando tapas nas coxas, estórias licenciosas e até mesmo sádicas. Amargas decepções afligiram vossos espíritos embrutecidos por previsões sepulcrais, quando descobrísseis autênticos e antigos intoxicados, inveterados adeptos de estupefacientes formidáveis, mas também amigos de boa mesa, bom vinho, e, cúmulo da abominação, muitas vezes tendo rebentos igualmente imbecis, galhofeiros, gordos, bochechudos e tão prósperos quanto os pais. E, se vivêsseis algum tempo em contato com esses forçados do mal, logo veríeis que sua vida é regrada, que cuidam de seus negociozinhos, que têm as mesmas preocupações dos outros bacanais e que seu 'vício',enfim, não tem em sua vida um papel mais amplo, mais demolidor e nefasto do que outro entre os mais fantasmagóricos, a masturbação, por exemplo. Além do mais, para tornar vossa desilusão irremediável, por mais consternadora que fosse tal constatação – que os efeitos das drogas mais virulentas são incomparavelmente menos violentos do que os do álcool, pois não somente eles nunca têm delírios alucinatórios, mas levam a impudência ao ponto de jamais ficarem embriagados. Para eles, tudo se limita a uma vaga euforia. Só o terrível pó branco que é um pouco excitante.
“Desafio qualquer pessoa a contradizer-me neste ponto. É o certo abuso de meu produto que provoca às vezes os dois temíveis fantoches, meus primos, a Loucura e a Morte, mas o faz menos frequentemente do que o abuso do álcool. Sim, pois o álcool é meu melhor tóxico, e os viciados em drogas em geral são indivíduos de temperamento delicado demais para suportar longamente a embriaguez alcoólica.
“Se esta parte de meu império carece um pouco de lirismo, se todos os meus vassalos não são lá muito bonitos, a culpa é de vossa estúpida humanidade.
“Alguém poderá objetar, inteligentemente:
-Mas se por acaso, tudo o que declaras for verdadeiro (sede polidos), as terríveis proibições das quais falavas agora há pouco são certamente um pouco ridículas (olá, um ponto ganho), mas teu erro não é muito grave; evita, aos predispostos, hábitos maléficos, se não muito perigosos, pelo menos sem interesse!
“Ora, para com isto, infeliz! Quem é o miserável que pronuncia essas palavras afônicas? Eu o repreenderia rudemente pela temeridade de seu julgamento, se não percebesse que esse mesmo infeliz, por um artifício de retórica ultragasto, sou eu mesmo. Para, portanto, infeliz, digo eu, pois não sabes por que motivo os viciados em drogas tomam drogas.
“Na noite impura de lama e sangue, onde a humanidade, assim como um esfolado arrasta sua pele, vai arrastando sua vida miserável e sofrida, minuto a minuto, montanha feita de élitros de insetos aglomerados, na noite impura de lama e lava, onde ninguém se reconhece a si próprio, eu Morfeu-o-Fantasma, eu, Morfeu-o-Vampiro, reino, tutelar e cheio de sarcasmo, sobre meus rebanhos malditos, como o rei condor rodopiando nas nuvens sobre uma horda de lebres cavalgadas pelo medo através de uma estepe árida, imensa e sem fendas como a representação geográfica da rotundidade do globo terrestre.
“E, se não Maldoror, farol do mal despertado na noite da terra, caem todas as lebres humanas fascinadas pelos círculos concêntricos que descrevem rapidamente meus olhares morfeanos. Sim, caem por terra, a cabeça separada da de seus sósias, nas torrentes subterrâneas do sono que se vão jogar no lago da morte. Mas, para alguns privilegiados somente, disseminados através de todos os tempos e de todos os espaços, multiplico a pequena morte e aperfeiçoo sua imagem até torná-la assíntota do mais autêntico trespasse, doando-lhe a poeira estrelar que cobre minhas asas, os parasitas mordedores que as povoam, os vapores que delas se elevam e os tubos de suas plumas transformadas em cachimbos.
“Mas estes seres eleitos pela maldição noturna são e permanecerão relativamente raros; meu império – infelizmente – está sujeito às leis biológicas.... As estatísticas demonstram facilmente que – com exceção de algumas personalidades superiores bastante evoluídas para fugir à maioria das contingências sociais (quantidade, se não qualidade, negligenciável) - meus súditos tornaram-se maioria, legião, unanimidade nas raças em declínio, nas tribos envelhecidas que agonizam. Pensemos no alcoolismo dos índios da América do Norte. São eles a monstruosa exceção entre os povos que vivem sua fase conquistadora de expansão. Em todo o caso, algumas miseráveis leis de proibição jamais poderão impedir essas gigantescas e fatais reações étnicas.
“Em vossas moribundas cidades da Europa, onde se gastam em seus últimos contatos todas as raças e todas as suas fases, vedes lado a lado todos os meus malditos, as vítimas dos fenômenos étnicos e as de dramas individuais, percebidos até agora pela 'psicologia dos estados', ainda desconhecida no conjunto de sua teoria e que Gilbert-Lecomte oporá, quando chegar a hora, a todas as velhas asnices derivadas da 'psicologia das faculdades' que apodrecem nas Sorbonnes deterioradas. Não há dúvida de que escapam ao meu domínio uma maioria de indivíduos que sentem a respeito das drogas uma repulsa verdadeira e invencível, que apenas reforçam os imperativos morais. São seres suja mocidade orgânica, que nada tem que ver com a idade, mas que passa tanto quanto por ela, faz com que neles predomine o 'instinto de autodestruição' do qual nunca ousamos falar e que, no entanto, tem um lugar igual na maioria das consciências humanas.
“Mas, diante desses homens ditos sadios, para quem o repouso de cada noite, mesmo reduzido ao mínimo, é ainda um fardo pesado do qual só desejariam libertar-se para agir melhor, há outros, os amantes dos longos sonos sem sonhos, aqueles que um mal desconhecido atormenta e para os quais a felicidade está na Morte-na-Vida. Há, principalmente, pesados e impiedosos, no campo fechado do corpo obscuro, os combates entre os inimigos mortais, querer-viver e não-agir, volúpia de poderes e outras mais pérfidas, do querer que agoniza em crepúsculos fúnebres, em declínios de vertigens.
“Entre os homens triplamente marcados pelo meu signo, descobrireis o resultado dessa antinomia em todos os degraus da escada dos valores. Depois de uma maioria de deformados hereditários, nos quais o gosto pelas drogas não passa de uma reação animal contra o não-senso que constitui sua vida tarada, e vereis que até alguns grandes forçados, amaldiçoados pelas tempestades e pelas borrascas que são sempre as terríveis vozes do espírito amaldiçoado, e sucumbindo à desonra de serem homens.
Jana Stovakovic
“Há, na realidade, para certo número de seres de sensibilidade super aguçada, uma consciência de estados opostos às vezes intensamente exaltada e às vezes dolorosa. Os sinais dessas crises exageram-se em alguns predestinados, monstruosos só pelo fato de terem no fundo de si mesmos, como sua própria condenação, um elemento sobre-humano que ultrapassa e contradiz sua época, fulgurações do espírito ou energia física gigantesca. Tais elementos bastam para desajustar enormemente uma vida humana. Em primeiro lugar, por seu caráter antissocial: provocam ações irredutíveis ao julgamento universal do comum dos homens, que se vingam traçando à volta do maldito um círculo mágico que o isola; provocam a incompreensão odiosa e os constrangimentos niveladores que o forçam à amargura da solidão, também chamada 'loucura'. Por outro lado e em segundo lugar, por seu caráter antifisiológico no plano individual; a pura violência, que é sua natureza, ganha, em alguns anos, das mais fortes máquinas humanas.
“E, agora, admitamos este princípio que é a única justificativa do gosto pelos estupefacientes: o que todos os viciados pedem às drogas, consciente ou inconscientemente, não são as volúpias equívocas, a hiperacuidade sensual, a excitação e outras balelas com as quais sonham todos os que ignoram os 'paraísos artificiais'. É única é simplesmente uma mudança de estado, um novo clima onde sua consciência deverá ser menos dolorosa.
“Jamais poderemos compreender todos os inimigos, as pessoas de humor igual e serenas, os franceses médios, os burocratas da inteligência, todos aqueles cujo espírito, instrumento primitivo e grosseiro, mas inquebrável, está sempre pronto a entregar-se a seus hábitos cotidianos, sem jamais conhecer a noite sólida do embrutecimento petrificado, nem a agilidade milagrosa do clarão que cega. Eles não percebem que, em oposição aos peixes de boca redonda chamados ciclóstomos, os psiquiatras batizaram com o vocábulo 'ciclotímico' certo número de 'doentes' cuja vida decorre em alternâncias infernais e regulares de estados hipo e hiper, de depressões e de entusiasmos espirituais. Frequentemente, aqueles que conhecem a dor lancinante dessas depressões preferem recorrer ao suicídio.
“Mais incompreensível ainda será o estado de consciência assustadoramente clara. Trata-se da dor pouco comum ao homem de julgar-se de repente 'inteligente' demais. É inútil tentar fazer nascer, num espírito que não a experimentou, a aproximação deste estado que, segundo um determinismo desconhecido, num instante súbito de horror frio e tenaz do véu rasgado dos antigos mistérios. Ante a mais absoluta disponibilidade da consciência, isto significa a lembrança brusca da inutilidade do ato em curso, tornado símbolo de todo e qualquer Ato, diante do escândalo de ser, e de ser limitado, sem conhecimento de si mesmo. Essência da angústia em si que engendra os loucos, que engendra os mortos.
“E não é o obscurecimento reencontrado do estado de consciência normal e interessado na vida cotidiana, que pode um homem fugir da lembrança desta luz absoluta que mataria um cego vivo. Embora tenha sido apenas uma entrevista na fenda de um relâmpago, ela deixa na cabeça humana um câncer imortal. Sim, pois não podemos opor um estado habitual, que seria a norma, a outros estados que chamaríamos de patológicos, porque são percebidos imediatamente como inferiores ou superiores àquele. Há apenas estados mais ou menos dolorosos e a atitude normal do homem é provocar em si o estado de menor sofrimento. Assim sendo, a lembrança de um estado superior (por ser mais luminoso), ao estado dito normal, basta para tornar este último intolerável. Seria então preciso mudá-lo o mais frequentemente e o mais longamente possível. Infelizmente, para a clareza desta exposição, não é aqui oportuno examinar os diferentes meios capazes de fazer mudar uma consciência de planos que vão em princípio, da inconsciência absoluta à consciência total e onisciente: eis aí o princípio de toda uma ética dinâmica e imediata. Mas, no caso de que nos ocupamos, basta saber que o uso de estupefacientes, tomados em quantidade adequada, é inegavelmente um desses meios. Sim, pois cada droga gera um estado específico: a embriaguez do álcool, o kief do ópio e mais geralmente, a euforia dos alcaloides, etc. E se é impossível, no momento presente, encarar o valor mortal desses estados mais dolorosos, para não dizer inferiores ou superiores, as drogas certamente salvaram muitas vidas.
“Além do mais basta dizer que os estupefacientes são considerados por alguns místicos, por paradoxal que isso possa parecer, como meios de ascetismo. Claro que nunca poderiam ser considerados como geradores de êxtases, pois seus estados específicos estão nas antípodas, nem mesmo como favoráveis à contemplação, e sim como contravenenos. Na vossa civilização moderna, principalmente, onde o corpo humano fica degradado pelo excesso de alimento, pela febril superatividade...
“Em vão amordaçadas por vossas leis sociais, dormem entre vós energias destruidoras que poderiam fazer voar o mundo pelos ares. Por seus olhares incendiários, reconheço, nos terrenos desertos, Átila, Genghis-Khan, Tamerlão. A embriaguez do álcool é para os operários, o mais nobre protesto contra a vida sórdida que os fazem levar à espera da morte, enfim, do pensamento do Ocidente, à espera do cataclismo futuro, aureolado de revoluções, eu, Morfeu, moldo as hordas vindouras de acordo com minha rude higiene. Enquanto espero a hora, é sobre si mesmos que exijo que eles exerçam sua força de destruição. E nas mutilações voluntárias, os envenenamentos terríveis dos álcoois que fazem o ser ofegante rolar nas margens da morte, os golpes de cabeça nas paredes, todos os sofrimentos que me foram infligidos são os únicos critérios que me asseguram da existência de homens fisicamente desesperados, suficientemente mortos em sua própria individualidade para demonstrar na face o sarcasmo impassível do desinteresse perante à vida, único penhor de todos os atos sobre-humanos.”
E, enquanto, frenético, Morfeu-o-Vampiro desaparecia devorando-se a si mesmo, seus fiéis gritavam:
“Faze-nos durões e morde até matar!”
(Texto completo transcrito da antologia A experiência alucinógena.)