cidade-cicatriz



cidade-cicatriz
com suas bolhas de sangue coagulado
topografia de lacerações
civilidade rançosa
suas veias congestionadas
com células mecânicas raivosas

seus nervos enferrujados
seus monumentos corruptos
seus heróis de latão

reservatórios de esgoto fresco
fluxo de galerias intestinais
glândulas administrativas
protozoários sociais

flores de carne em jardins públicos
suaves pétalas sangrentas
ainda sustém o rubor da vida

concreto ósseo sustentador
envolve as ferragens do espírito
infinitos olhos de vidro
encarando o nada

Roberto Piva transferido para reparo de vísceras

A Piedade

Eu urrava nos poliedros da Justiça meu momento abatido na extrema
        paliçada
os professores falavam da vontade de dominar e da luta pela vida

as senhoras católicas são piedosas
os comunistas são piedosos
os comerciantes são piedosos
só eu não sou piedoso
se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria aos
        sábados à noite
eu seria um bom filho meus colegas me chamariam cu-de-ferro e me
        fariam perguntas por que navio bóia? Por que prego afunda?

eu deixaria proliferar uma úlcera e admiraria as estátuas de
        fortes dentaduras
iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos pederastas ou
        barbudos
eu me universalizaria no senso comum e eles diriam que tenho
        todas as virtudes
eu não sou piedoso
meus olhos retinem e tingem-se de verde
Os arranha-céus de carniça decompõe nos pavimentos
Os adolescentes nas escolas bufam como cadelas asfixiadas
arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através dos meus sonhos



Estes poemas foram publicados no livro Paranóia em 1963, o primeiro que o poeta paulistano publicou. Piva é considerado um expoente da poesia surrealista brasileira, inspirada pelos surrealistas franceses e pelos beatniks. Paranóia é uma perseguição desvairada por visões em São Paulo, palco de encontros oníricos com Garcia Lorca, Mário de Andrade, Lautréamont e outros fantasmas que povoavam a mente de Piva. É um manifesto contra a frieza do concreto, contra a estética urbana da passividade, contra os estandartes hipócritas das vazias vidas metropolitanas.


Poema Porrada 


Eu estou farto de muita coisa
não me transformarei em subúrbio
não serei uma válvula sonora
não serei paz
eu quero a destruição de tudo que é frágil:
        cristãos fábricas palácios
        juízes patrões operários
uma noite destruída cobre os dois sexos
minha alma sapateia feito louca
um tiro de máuser atravessa o tímpano de
        duas centopéias
o universo é cuspido pelo cu sangrento
        de um Deus-Cadela
as vísceras se comovem
eu preciso dissipar o encanto do meu velho
        esqueleto
eu preciso esquecer que existo


"Paranóia foi a forma que encontrei para exorcizar a cidade e o câncer urbano das pessoas."

Poema da Eternidade sem Vísceras

Na última lua eu odiava as montanhas
minha memória quebrada não pode receber
        o amor
eu tomava sopa aguardando meus amigos desordeiros
        no outro lado da noite
este é o meu estranho emprego este mês
outro tempo quando o velho Gide se despachava para a África
        meu coração era sólido eu dançava
eu assistia uma guerra de chapéus e as brancas
        lacerações dos garotos no Ibirapuera angélico
        terreno vazio onde eu mastigava tabletes de
        chocolate branco

no próximo instante eu vi árvores e aeroplanos com bigodes
        e lágrimas de Ouro
no Ibirapuera esta noite eu perdi minha solidão
ROBERTO PIVA TRANSFERIDO PARA REPARO DE VÍSCERAS
todos meus sonhos são reais oh milagres epifanias
        do crânio e do amor sem salvação que eu sabia presos
        no topo da minha alma
meu esqueleto brilhava na escuridão
        repleto de drogas
eu nunca estou satisfeito e ando um incorrigível demônio
        lunático com os dez dedos roídos tamborilando num campo
        magnético
memória de arsênico que eu dei a uma pomba
        os olhos cinzentos do céu meu oculto Totem espiritual

Eu direi as palavras mais terríveis esta noite
        enquanto os ponteiros se dissolvem
        contra o meu poder
        contra o meu amor
no sobressalto da minha mente
        meus olhos dançam
no alto da Lapa os mosquitos me sufocam
que me importa saber se as mulheres são
        férteis e Deus caiu no mar se
        Kierkegaard pede socorro numa montanha  
        da Dinamarca?

eu urrava meio louco meio estarrado meio fendido
narcóticos santos ó gato azul da minha mente!
eu não posso deter nunca mais meus Delírios
Oh Antonin Artaud
Oh Garcia Lorca
        com seus olhos de aborto reduzidos
        a retratos

        almas
                       almas
                como icebergs
                como velas
                como manequins mecânicos
e o clímax fraudulento dos sanduíches almoços  
        sorvetes controles ansiedades
eu preciso cortar os cabelos da minha alma
eu preciso tomar colheradas de
        Morte Absoluta
eu não enxergo mais nada
meu crânio diz que estou embriagado
suplícios genuflexões neuroses
        psicanalistas espetando meu pobre
        esqueleto em férias


A máxima rimbaudiana do desregramento dos sentidos era levada a sério pelo poeta. Radicalmente antropófago, desbravava os limites, rompendo as barreiras da língua, da moral, das certezas e das próprias convicções, Roberto Piva é um autor mutante. Durante sua vida seguiu escrevendo e lançando vários livros, cada um marcadamente distinto do anterior mas com a verve característica do poeta. A busca por forças ancestrais o levou ao contato e imersão no candomblé e no xamanismo, elementos muito presentes na última fase de sua produção. 




O vídeo acima é um dos últimos registros de Roberto Piva recitando uma de suas poesias, durante a gravação do documentário Assombração Urbana, sobre sua vida e obra. Você pode vê-lo no Youtube clicando aqui.
O livro Paranóia pode ser encontrado na íntegra aqui.

Jurema Preta


Sou aluno
    das árvores
alma elétrica
    nas veredas mais secretas
Catimbó sonâmbulo
    & seus palácios
meu crânio virando brasas
desfolhando meu coração
mananciais transfigurados
    na
memória

(Em Estranhos sinais de Saturno - 2008)

Espetáculos Espectrais: True Detective

Começo aqui um trabalho de "crítica" experimental. Como estreia da seção Espetáculos Espectrais, que trarão minha apreciação sobre obras audiovisuais que me abalaram o espírito, tentarei apontar aqui por que a série True Detective me cativou e a indico.

Volta e meia assisto um filme, uma série, um documentário, e sinto vontade de escrever algo a respeito dele. Talvez isso seja fazer um trabalho de crítica amadora, apontando elementos que se destacaram na minha percepção. Sem pretensões de fazer algo certinho.



Este artigo trata da história que se desenvolve e termina nos oito episódios da primeira temporada.

A série segue as narrativas das lembranças de dois detetives do estado de Louisiana, que em 1995 conduziram uma investigação sobre mulheres e crianças que desapareceram, foram torturadas e mortas. O caso veio à tona nos dias atuais com o aparecimento de uma vítima encontrada com traços muito semelhantes ao crime que iniciou a investigação de 95, e Rust Cohle e Marty Hart são entrevistados pelos atuais detetives do Departamento de Investigação Criminal do estado.

Até aí, mais uma série de crime como tantas. Mas o que distingue True Detective é sua intensidade filosófica, sua abordagem ultrarealista e sua narrativa impiedosa. A interessante dinâmica entre a dupla de detetives, interpretados por Matthew McCounaghey (Rust Cohle) e Woody Harrelson (Marty Hart), dá o tom do desenrolar da série. Cohle é um pessimista declarado, sem respeito pelas convenções e com um latente desprezo pela autoridade. Características curiosas para um policial. Já Hart faz mais o tipo, um moralista hipócrita com propensão para a violência. A honestidade brutal de Cohle incomoda seu parceiro, que o tolera por perceber que a mente estranha do pessimista se prova aguçada na investigação do crime.

Hart é o homem de família, tradicional e cristão. Esposa, duas filhas pequenas e uma bela casa. Cohle vive sozinho numa casa pequena, estéril, sem mobília e tem como companhia seus livros sobre crimes, filosofia, psicologia e mitologia. Ele não é cristão. Apesar de sua vida perfeita para os padrões da sociedade, Hart é um homem violento, reprimido, adúltero. Talvez seja justamente a repressão e a hipocrisia da sociedade sulista americana profundamente religiosa e conservadora que o impele a momentos de explosão dos impulsos mais basais, ao alcoolismo e à alienação da própria família. Sem falar nos horrores que esse caso o leva a testemunhar.


Nagy Norbert


Cohle perdeu sua filha e se divorciou da única esposa. Trabalhou por anos como policial infiltrado pela divisão de narcóticos. Se entranhou no mundo do crime de gangues de motociclistas, onde o tráfico e o abuso de drogas eram a tônica de seus dias. Flashbacks de alucinações dessa época ainda afetam a mente de Cohle aleatoriamente, ou nem tanto. Ele também é sinestésico, podendo sentir o gosto de certas vibrações na 'psicosfera'. Talvez essas anomalias químicas e traumáticas no cérebro de Cohle tenham lhe proporcionado também a habilidade de analisar as pessoas de maneira instantânea e aguçada, lhe conferindo uma espécie de 'sexto sentido' sutil e realista. Um detetive niilista psicodélico, arquétipo peculiar.

A série é marcada por elementos da psicologia de Jung, sendo a psicosfera nada menos que o inconsciente coletivo em que estamos mergulhados. Referências a filósofos e escritores da modernidade também são frequentes. O Rei Amarelo que assombra os detetives e as dezenas de vítimas do sudeste estadonunidense foi retirado de uma obra de ficção de Robert E. Chambers, colega de letras do monstruoso H.P. Lovecraft. Terríveis elementos da obra se tornaram termos misteriosos usados pela seita que preda os inocentes na desolada e pequena cidade dos pântanos de Louisiana.

Aí está aquilo cuja ressonância macabra com a realidade me fascinou. (Alerta de spoiler) Apesar do resultado efetivo do trabalho dos detetives, a origem do mal não é derrotada. Mesmo tendo encontrado aqueles que perpetraram diretamente crimes horríveis, eles não estavam sozinhos. Eles eram apenas tentáculos da besta. É aí que a perversidade da série revela uma perversidade real: a impunidade de poderosos envolvidos em pedofilia e assassinato. A Igreja, a Polícia, a Política, as augustas instituições de nossa civilização, estão envolvidas através de seus agentes em rituais que resultaram na morte de muitas pessoas. São linhagens de sangue intocáveis que seguem com práticas ancestrais, ritos de poder e dominação onde os mais vulneráveis são sempre as presas - prostitutas, órfãos, crianças pobres, famílias desoladas. Os milhares de desaparecidos cujos casos nunca são e não serão resolvidos. A membrana da ficção é transpassada por essa cruel realidade, e é justamente aí que se dá o toque ao espectador. Um toque que pode passar desapercebido pela maioria, mas certamente a ressonância com o real será notada. O true detective perceberá. Os frutos do projeto MK-Ultra, operações de controle mental, abuso sexual sistemático e impune, o Projeto Monarca e a abominável corrupção das instituições e dos corações são terrores reais. Que o leitor espectral desse blog tenha curiosidade, senso crítico e cautela para enveredar por essa senda de pesquisa.


True Detective


Em conclusão, a coragem de tocar explicitamente no núcleo bilioso de nossa sociedade hipócrita, contando a história de forma tão intensa e ousada, deu à série o reconhecimento justo de um vasto público e da crítica. Contra-indicada para corações trêmulos e expectativas padronizadas, a primeira temporada de True Detective oferece uma viagem sem volta aos abismos da mente humana. 

 E a trilha sonora é do caralho!




"The world needs bad men. We keep the other bad men from the door."
- Rust Cohle

Dissecção



Sim, eu sou cínico
Vejo o mundo como um cadáver mutante
Onde sempre tenho de fazer uma nova incisão
A causa mortis desse corpo é um eterno mistério
A cada autópsia, as regras mudam
Novas lacerações e cancros sorrateiros
Emergem da paisagem sanguínea
A cada segundo uma nova bomba
Nos folículos capilares desse corpo desértico
Imenso pântano de mortalidades
Cirurgião-célula num delírio post mortem
Brandindo o escalpelo da razão
Abrindo um corte na imaginação
Membrana sórdida que reflete a densa materialidade
E se contorce numa inclinação viciosa ao infinito
Teatro biomecânico da tragédia ancestral
O eterno retorno de uma vida banal
Tendões de aço cravados aos nossos
Movendo nossos membros inertes
Pela prosaica jornada dos vivos
Inspirando o miasma estupefaciente
Pela atmosfera-máscara de gases vitais
Paciêntes crônicos em inospitais
Esquecidos em corredores infinitos
Brancos, puros e estéreis
Que nos consuma a doença da vida
Que nos devorem os vermes da terra
Que nos sublimem os ventos que passam
A ciência pode catalogar
Transgredir, mutilar
Em nome do deus tirano Progresso
E seu séquito de sacerdotes-acadêmicos
Hecatombes microscópicas
Aos olhos serpentinos do poder
Mas que podem ser amplificadas
Íntimos genocídios revelados
Sigo minha necrópsia clandestina
De nossa rançosa civilização
Com a coragem de operar
Estômago fraco e nervos de melaço
O coração em brasa
Tentando entender
Numa obsessão altruísta
Buscando extrair
Com uma pinça pessimista
O implante macabro
Que nos foi inoculado
A apatia virulenta
A ignorância raivosa
A tristeza teimosa
E talvez possa finalmente embalsamar
Minha mente inchada num frasco de clorofórmio
E sonhar


"É belo como a retratibilidade das garras das ave de rapina; ou ainda, como a incerteza dos movimentos musculares nas feridas das partes moles da região cervical posterior; ou melhor, como essa ratoeira perpétua, que sempre é armada de novo pelo animal capturado, que pode pegar sozinha os roedores, infinitamente, e funcionar até mesmo escondida sob a palha; e principalmente, como o encontro fortuito sobre uma mesa de dissecção de uma máquina de costura e um guarda-chuva!"
- Conde de Lautréamont
(Os Cantos de Maldoror)

cismático e eterno

O prazer elétrico das vibrações
Causando o efeito desejado
Reminiscenciando orgasmos

Ritmos cerebrais pulsantes
O magnetismo universal

A mente é o campo de batalha
Calmaria insana - tempestade
Corda bamba do destino - oscila
Um sorriso torpe e imoral

Mentiras não se sustentam
Embrutecem, rugem e morrem
Lá vem ela trazendo a chama
Sacrifício cerebral - terremoto
Doces ilusões apodrecidas
Nutrem a vida que irrompe
As delícias da luta - reconquistadas

É uma guerra ou um carnaval?
Absurdo teatro de catarses
Festa da morte e da alegria
Agentes, segredos, narcóticos
Véus incendiados - desvelados
Monarcas decapitados - sublimados
Volúpias dos libertados
Amados e armados

Revoluções internas são a chave
O processo é alquímico - crítico

O tirano está em ti, assim como o escravo
Uma mão que fecha e outra que não
O veneno é a dádiva dos calmos
O desespero sublime dos aflitos
E o fervilhar dos corpos em brasa

Sem pátria, sem deus, sem causa
Estandartes anárquicos da aurora
Marcham dançando em jogos letais
Embriagados de lama e revolta
Os brotos rompendo o concreto
Neurônios-rizomas globais - totais
Implacável é a força das correntes
Serpenteando entre os céus e o mar


(2013)


Funeral aéreo

Fiquei um tempo sem escrever nada aqui, mas vamos tocar o barco. As convenções sociais-digitais não me comovem, não quero fazer deste blog mais um espaço para elas. Não há compromissos de frequência ou continuidade nesse espaço experimental, mas tentarei não relegá-lo à dispersão total.

Então vamos lá, transformar minha bile negra em combustível para essa máquina sem forma, fazer do niilismo um fator de criação, não um poço para se afogar. Segue um escrito meu que passo do papel pro virtual:

No frio e no tempo

dente de paquiderme

na encruzilhada dos ateus

deuses de fosfeno

na dança do esquecimento

pesquisas epiléticas

gramática nervosa

o horizonte vibra

se descondensa na neblina

descortina os segredos

do nada absoluto

remando asas de abutre

razão dilacerante

bico devorador do pensamento

autópsia de um morto-vivo

máquina social no coração do abismo

miragem no enxofre

bafo de vulcão

numa existência vulgar

resistência fugaz

sem âncora e sem mar

funeral aéreo

a catástrofe da paz




[ No Tibete há uma prática mortuária que consiste em oferecer os corpos dos mortos aos abutres num ritual de transmigração. Esse é o funeral aéreo (sky burial). ]