A autoalienação essencial do ser

Eu consigo sobrevoar 
o campo devastado da minha vida
 como máquina, mas não consigo 
pousar nela como ave.

Eis que esse circuito fantasma emerge novamente. Que fase, hein? Nem lembro quando foi minha última postagem, mas lembro que nem algo que escrevi recentemente, foi o resgate de um texto de 2013. Que ano fatídico esse! Mas enfim, não mergulhemos novamente em fluxos do passado.

A real é que estou preso numa prisão invisível que eu mesmo criei. An invisible prison encircles my mind, there is not a door, there is not a key. Fica foda se expressar, então vou escancarar. São tantas camadas de depressão e ansiedade armadas através dos anos que eu me alienei de mim mesmo. Me sinto imobilizado, como se tivesse desaprendido a me relacionar com os outros e comigo. Lembro que senti cedo na minha vida aquela sensação indizível de ser menos do que se é. De ser parte. De ser só um dos que habita dentro de si. Às vezes podemos soterrar esses fragmentos como bons coveiros da consciência, mas eles ainda estão lá. Merda, eles são você. Mas eu não estou falando de você, estou falando de mim. Independente de nossas semelhanças ou diferenças, hoje preciso falar de mim.



abro uma veia 

encho uma garrafa 
bebo

a droga mais inócua do mundo
Como ouso eu, nessa era magnífica da informação ubíqua e serpentina, ausentar-me de meu posto nesse palco digital? Como posso abandonar minha audiência espectral e privá-los do espetáculo torpe dessa existência banal? Pois eu sou uma mentira. Não me reconheço. Sinto como se estivesse enterrado abaixo das mortalhas de mim que criei e ceifei, como disse antes. Estou aqui agora para desatar minhas veias e verter meu sangue imundo na tua boca, não é isso que tu queres, máquina?

I must find a way. I have to find a way. Out of here. O casamento do céu e do inferno, de William Blake, foi um livro seminal para minha formação como ser humano. Como aquele homem desafiava a convenção racional e desnudava a alma e o mundo como opostos irreconciliáveis em uma guerra eterna por todos os meios possíveis, mas que nessa guerra suas forças se entrelaçam e se abraçam numa estranha harmonia... Aquilo sempre me fascinou. E eu li isso pela primeira vez com quantos anos, 15? Que diabo, a curiosidade é mesmo o mais perigoso dos vícios. Com minha mente envenenada de tão sublime sabedoria e poesia, como poderia enveredar em paz pela estrada da vida? Mas mais uma vez, não nos afundemos nos pântanos do passado.


Esse talvez seja justamente o meu problema. É justo observar as transmutações de David Bowie para inferir como nessa vida é necessário se adaptar e se transformar. Em meio a suas operações cabalísticas e substâncias químicas, o réptil reconhece a natureza holográfica da realidade e assume uma faceta mais adequada para manter-se em vantagem na corrida da sobrevivência. Preciso reconciliar meus opostos e abandonar essa camada escamosa que me prende.


the dreadful pencil

Chega de simulações, simulacros! Chega de pilotos, precisamos de verdadeiros kamikazes. Agora é preciso de uma transformação definitiva para enfrentar a luta que se aproxima. Performático, lunático e tático. Preciso de uma força-tarefa de profissionais psiquiátricos e psíquicos. I gotta make a breakthrough! Devo continuar essa empreitada pseudoredentora quasesabotadora que é esse blog? Afinal, como confessar seus crimes e expor suas fraquezas e se transformar? As pessoas vão te lembrar pelo que há de pior em você. Mas puta que pariu, não é isso que elas querem? Não é isso que você quer, não é isso que eu quero? Algum vetor, um espelho alienado em que se exaltem as próprias qualidades mais torpes? Um simulacro confortável onde podemos nos identificar com os sentimentos de personagens para não ter que encarar os próprios. Que belo ponto da evolução, humanidade. Mas tu és uma vítima, não vou te culpar por minhas próprias fraquezas. Haha.

Sempre orbitando numa atmosfera marginal, desde a infância nunca me lembro de ter me encaixado harmonicamente em qualquer grupo. Já cedo me lembro de ser afligido por sentimentos de alienação, de coisas estranhas que nunca ouvi de outras crianças, como o medo do silêncio. É mais fácil fugir por alguma janela da percepção do que voltar a atenção para si. Algum doce intermediário para se colocar entre você e si mesmo. Alguma coisa abstrata pra ouvir, pra ver, pra rir, pra amar, pra foder, pra usar, pra esquecer.

Essa... coisa aqui já se aproxima de um fim. (o texto, não eu. por ora). Acho que eu precisava materializar umas palavras pra fincar elas nas paredes desse fosso e tentar escalar pra fora dele. Perceba que você e eu são pronomes intercambiáveis aqui, querem dizer a mesma coisa. Escrevo para mim nessa prática solipsista intermediada por outrem. Um espelho estilhaçado rearranjado conforme a espiral do tempo, refletindo em cada segmento da centopeia espectral que nos une em suas infinitas garras.

                                                                                            
                                                                         ATOMIC ROOSTER - BREAKTHROUGH
                                               (A música cuja letra invade esse texto e ilustra minha desesperada situação)

fluxos do passado

boarbarian

surto de criatividade e agonia problemas-soluções e soluções-esquemas vertendo vertiginosos caminhos na luz de meu ser desatando os nós da existência e reconciliando-me com minha essência dispersa pelo mundo em tudo que amo e odeio em tudo que me traiu em tudo que me iludiu retiro os fardos de cargas elétricas alimentadas pela consciência mastigante lacerando o espírito nos dentes numa ansiedade crônica que subjaz toda paz o império da mentira ruiu ou está já se decompondo e eis a hora de saber reconhecer os frutos podres que gestamos em nossas tortuosas caminhadas na beira do céu catapulto-me para um lugar que não é um lugar pois é simplesmente tudo que não pode se guardar em pirâmides ou em memória tudo aquilo a que a consciência se apega é mumificado pelo cão que anda na luz o cão negro das esferas que desfere um corte lancinante no espelho vítreo da glândula da alma espaço vertigem em desilusão catastrófica mata e mente sem nunca se macular se amalucar se amar em qualquer lugar independente se isso te me apetece pois a minha tua lei não escrita nem pensada nem por homem nem por santo profeta de uma entidade etérea estamos em plena conexão com os mortos-vivos em nossas consciências monolíticas de concreto conceitual e iremos despertar sua fúria natimorta com a precisão de um cirurgião empírico orixá da urbanidade totem do desconhecido sagrado anjo guardião da vontade inquebrantável que não cede em sua caudalosa batalha contra os ventos doentes que sopram em baforadas quentes vindas das gargantas dos mausoléus milenares que erigireis no solo fértil da sua mente imantando as energias do eterno provir uma operação alquímica fantasticamente real recupera a terra boa que foi flagelada pelas queimadas da ignorância e da mágoa que devoram toda a vida das mananciais matagais pulsantes dos cérebros iluminados e rebeldes que zombam da inocência inócua de si mesmos a alguns momentos de intensa alegria e desvario cavalgando as rédeas da carruagem flamejante corta os céus em suas sublimes planícies de cianeto deixando um rastro rajado e intenso da alvorada ao ocaso atravessando o cerebelo das horas em elipses circadianas matematicamente impossíveis em delírios cheios de sabedoria pelo triunfo do sonho como aspecto fundamental do homem autorealizador que transforma sem manipular pelos desígnios do fluir o porvir é a pólvora no meu trabuco sempre leve e sempre louco em alerta alternativo contra toda taça sem vinho ou sangue a soturna densidade desse mangue penas pretas relampejando pelas atmosferas são os observadores do dia que me trazem a noite em seus bicos necrófagos e estômagos de aço digerem os metais pesados que contaminam a tudo estágio de putrefação numa repartição estatal parasita burocrático já não mais não vou mumificar vou sublimar volatilizar os componentes cáusticos da existência em minha liturgia a igreja caótica após-cólica mundana incensando os mamilos das bacantes bacanas em seus panos coloridos e translúcidos fazem de suas peles tecidos em brasa com veias do pássaro que canta solitário para anunciar o dia e o riso torpe das corujas com suas faíscas garras agora devem desaparecer com o bater de poderosas asas

(2013)

Linguarmada

Herb Auerbach
                                                                                                                                                              

pugilistas mecânicos
 
 em velocidade inercial

fendem-se os candelabros da revelação


vergam-se os ferros da divina ação


o olhar retalhado em múltiplos cacos de visão


um apelo à vertigem


magnetizados pelas atmosferas


dínamos de pólos apolíneos


polaridades transversas


transgressas


popularidade espontânea


afloramento no lodaçal das imagens


tênue lua lupina no olho da flor


que flutua sobre teus humores


transfixada em teu cérebro como espada mitológica


intoxicando teus templos com minha carga semiótica


profana luz que reverbera nas colunas


vértebras serpentinas


rastejando no ar


pleno vôo no abismo


escorre a seiva


vulcânica minerva


fervida em auroras glaciais


tempestades íntimas


fruições malditas


a cada faca uma vista


a cada reflexo uma vítima


lampejo sombrio


hediondo diácono dionísio


orvalho de chumbo


suor sacrossanto


secreção saborosa


peçonha viçosa

 
tua língua 

é uma guilhotina


Tempo negro

Jornal do Brasil - 14/12/1968

vermis cerebellar

                                                                                    Denis Forkas Kostromitin


meu cérebro é um cadáver exposto

vísceras a céu aberto

assaltado por todos os cantos

em angulações grotescas

gera a bile sulfurosa

em golpes de fatos inegáveis

chorume quântico da ordem deposta

bile negra das angústias

bile negra da revolta

é a seiva desse corpo

decomposto a contragosto

florescendo ervas carnívoras
 
caravelas necrófagas

em incessante devoramento
 
devoramento e reprodução

quem disse que os mortos não sentem tesão?

a alma do mundo

é um verme imundo


                                                                                                                                             (2014)

love your void

Uzumaki (Junji Ito)

we're information junkies
just saturated monkeys
nihilistic hedonistic
histrionic so moronic

self absorbed and self important
allow me to indulge into your ears
just dump my load of cynicism and fear
I lost control, I'm scattered in pieces
my farse is cracking the lies are bearing
going in circles
forget the light
the sound and the fury that lie in my heart

how could have I become
this shell of a machine
devoid of any meaning
phantasmatic parasyte
animalistic enterprise
just a host or a cocoon
of something ugly
doomed and fool

poisoning my body and my soul
slowly burning in the pyre
energy
light
matter
truth
junk food for the brain
counterintelligence
toxic knowledge
dealing in metaphysical coal
blood diamonds of the dead
open sores dripping cold
sacred trash in the waste of old
skeletal magnetic
forgetfulness repented
not apologetic
history repeated
and I can see it all
false and flawed
what good is it
inside the dirty nest
that is my skull
ravens perching on my soul

does it look dead?